A pequena vitória de existir
Sábado, 30 de Outubro de 1976
Este dia fluiu como os anteriores. Sem sobressaltos, sem episódios que reclamem importância. No entanto, mesmo assim, talvez por isso mesmo, é uma história que vale a pena contar.
Porque às vezes não acontece nada de especial… e ainda assim acontece tudo.
Pode não ter surgido nenhum acontecimento digno de registo solene nestas páginas, mas o dia teve o seu valor silencioso. Estive cá. Vivi. Senti o ar a entrar e a sair dos pulmões. Caminhei pelas ruas, ouvi vozes, vi rostos, deixei que as horas me atravessassem. E isso, afinal, já é alguma coisa.
Cada dia pode parecer igual ao anterior, mas nunca é exactamente o mesmo. Há sempre um pequeno desvio invisível. Talvez na cor do céu, talvez no eco diferente dos passos sobre a rua empedrada, talvez apenas na forma como o coração decide bater nesse dia.
Começo a descobrir, com alguma surpresa, que existir no presente tem um valor que antes me passava ao lado. Sempre imaginei que a vida estava mais à frente, escondida no futuro, ou então presa nas memórias do passado.
Mas não.
A vida está aqui. Neste instante simples em que respiro, penso, caminho. Neste momento em que a tinta da esferográfica desliza sobre o papel e prova que estou vivo.
Talvez seja cedo para alguém da minha idade dizer isto, mas começo a compreender que existir já é, por si só, uma pequena vitória.
E cada dia que passa, mesmo os mais quietos, acrescenta mais uma.
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