Febre e labirintos da mente

Domingo, 31 de Outubro de 1976

Hoje a constipação que há alguns dias se anunciava rebentou finalmente como uma pequena tempestade dentro de mim. A garganta arranhada, a cabeça pesada, o corpo sem grande vontade de obedecer. Nada de dramático, mas suficiente para alterar o rumo do dia.

O ânimo, esse, curiosamente não mudou muito. Apenas o trajecto.
Em vez de ir para o Centro, fiquei em casa.

Passei grande parte do tempo recolhido no quarto, enrolado num silêncio doméstico que cheira a mantas e a chá quente. A certa altura procurei entre os livros da mesinha de cabeceira qualquer coisa que me desse vontade de ler. A mão acabou por pousar num livro curioso: A Divina Comédia, mais precisamente a parte do Inferno, de Dante Alighieri.

É uma forma estranha — e ao mesmo tempo fascinante — de imaginar o inferno.

Ali, os condenados pagam pelos seus erros numa espécie de justiça poética: cada pecado recebe o castigo que melhor lhe corresponde. Há algo de quase lógico nessa arquitectura do sofrimento. E descobri também uma coisa curiosa: o inferno não é feito apenas de fogo. Em certos círculos há gelo, frio absoluto, como se o mal também pudesse congelar.

Enquanto lia, dei por mim a pensar que talvez o verdadeiro julgamento não aconteça depois da morte. Talvez aconteça já aqui, durante a vida. Somos julgados pelos outros, é certo, mas sobretudo por aquela voz silenciosa que mora dentro de nós — a consciência, esse juiz que nunca se reforma.

Mas começo a suspeitar que estas reflexões podem não ser muito fiáveis.

A febre tem esse talento: baralha as ideias e empurra o pensamento por corredores um pouco tortuosos. Talvez esteja apenas a divagar sem grande certeza do que digo.

Se for esse o caso, tenho uma boa desculpa.

A culpa é da febre. 


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