O Rasto da Tempestade e o Eco do Sono
Terça-feira, 30 de Novembro de 1976
Hoje, quando me levantei, o meu corpo ainda ressacava do sarau de domingo; as dores musculares assemelham-se ao mau tempo que, depois de findar, deixou um rasto pesado e dorido no seu caminho. Cada movimento era uma recordação física do esforço, um lembrete de que a disciplina tem o seu preço. Todavia, a rigidez dos membros foi rapidamente eclipsada por algo mais profundo.
Esta noite sonhei — aliás, como acontece em todas as noites —, porém, desta vez, as imagens não se dissiparam com a primeira luz da manhã. Lembro-me bem de tudo. Talvez este sonho tenha sido o resultado duma impressão com que fiquei hontem, naquela proximidade cúmplice enquanto seguia com a Dila no trólei. Foi um sonho tão real, tão palpável, que ainda agora persistem em mim sensações intensas, remanescentes do sono, que se recusam a abandonar a vigília. Acordei, mas o sonho continua a pulsar cá dentro.
No sonho, eu tinha acabado de chegar junto da Dila e, como sempre, a mera impressão da sua proximidade fazia despertar em mim sensações que a razão não compreende. Começo a suar das mãos, o meu coração acelera em galope e sinto-me inibido, quase pequeno, junto dela; perco a capacidade de raciocinar e as palavras parecem ter ficado mirradas, secas perante o sol intenso que é a sua presença. Estávamos algures — devia ser um jardim bastante acolhedor, banhado por um sol de Verão. Caminhávamos lado a lado pelos trilhos serpenteantes, sob as sombras refrescantes das árvores. Ela conversava sobre a sua religião, sobre o mundo, sobre tudo, e eu escutava-a, hipnotizado pelo som daquela voz distante, qual melodia do trinado de uma ave do paraíso.
Sentámo-nos num banco, longe da vista de quem passava na rua; era um lugar só nosso. Lembro-me de estar perdido em contemplação pela sua presença quando, estando a sonhar, despertei dentro do próprio sonho para ver a Dila muito próxima de mim. Sentia a sua respiração quente na minha face. Aqueles olhos azuis procuravam com intensidade os meus pensamentos, enquanto ela me chamava:
— António… António… Então? O que se passa contigo? De repente ficaste com os olhos fixos em mim sem pestanejar e ia jurar que não respiravas.
— Eu… — tentei ensaiar uma resposta que não sabia qual. — Desculpa. Estava a ouvir-te a falar e de repente não sei o que me deu… — será que não sabia?, pensei eu, no íntimo.
— Deixaste-me preocupada. Não voltes a fazer isso — ralhou ela com meiguice.
— Desculpa… — não sabia que mais dizer. Como poderia confessar-lhe que ficara de tal maneira enlevado pela sua presença que me senti levitar ao seu lado? E foi tão bom…
Então foi que aconteceu o impossível. Chegou-se mais perto de mim, pegou-me na mão e aconchegou-a com a outra. Um fogo intenso subiu-me pelo corpo, afogueando-me a cara de uma forma que a luz do dia não explicaria. Ela sorriu, compreendendo o significado deste sintoma tão claro, mas não afastou as mãos; manteve-as no seu regaço, unidas às minhas. Lentamente, fui recuperando a compostura e a racionalidade. Sorri e, uma vez mais, tentei explicar-me, mas ela interrompeu-me:
— Sabes, António, que as palavras por vezes não conseguem revelar o que vai… — aqui fez uma pausa propositada, deixando denotar que se referia ao coração e que o seu também estava sincronizado com o meu — … na alma.
Quanta sabedoria e quanta sensibilidade eu encontrava naquela alma pura. Para culminar o sonho, levantámo-nos e seguimos caminho… de mãos dadas. Foi precisamente nesse toque, nessa união final, que o sono me devolveu à realidade e eu acordei.
Quando ia a caminho da paragem, o meu passo era acompanhado por uma apreensão que me apertava o peito. O meu desejo, a minha vontade mais profunda, era confessar-lhe o sonho que acabara de viver; no entanto, a incerteza corroía-me, pois não me sentia confortável na hipótese de ela não reagir bem àquela revelação tão íntima.
Aproveitei cada metro do percurso, sob o ar frio de Novembro, para amadurecer a ideia. Debatia-me entre a urgência de partilhar aquela felicidade nocturna e o medo de quebrar o equilíbrio frágil da nossa amizade. Cada esquina que dobrava era um novo argumento que eu ensaiava, tentando prever as suas reacções e as minhas próprias palavras. Levava comigo a responsabilidade de um segredo que me fazia levitar, mas que, ao mesmo tempo, me ancorava ao chão com o peso do receio.
Lá estava ela, toda sorridente e com uma disposição tão feliz que me invadiu logo a incerteza: contava ou não? Ela reparou no meu estado apreensivo e não descansou enquanto não me obrigasse a dizer que fantasmas trazia eu na cabeça.
No princípio, comecei apenas por revelar que tinha sido um sonho que me deixara assim, mas ela não se deixou levar por meias palavras.
— Ninguém fica apreensivo ou com medo de um sonho. Há mais qualquer coisa aí por detrás — exclamou, revelando um sexto sentido que eu desconhecia e que parecia ler-me a alma.
Então, sem mais fuga possível, comecei por dizer que tinha sonhado com ela. O seu sorriso desapareceu no mesmo instante, ficando muito séria. Apressei-me a explicar que não era nada de mal, que até tinha sido um lindo sonho, mas ela ficou com um ar de suspeita e pediu que lhe contasse mais pormenores. No entanto, fui salvo pela chegada ao Bonfim. Estávamos prestes a despedir-nos quando ela frisou bem, com uma autoridade doce mas firme:
— Depois do almoço vais ter de me contar tudo.
Com um sorriso pálido, prometi que assim faria, sentindo que o resto da manhã seria um longo ensaio para essa confissão.
Passei a manhã com o coração perturbado. Cada batida parecia empurrar o tempo com uma pressa desmedida, justamente quando eu mais desejava que as horas abrandassem, permitindo-me encontrar as palavras certas. O rigor das aulas era apenas um ruído de fundo; a minha mente estava ancorada naquele banco de jardim do meu sonho, tentando reconciliar a doçura da noite com a incerteza do dia.
Finalmente, chegou o momento de a ir esperar à porta do liceu. Quando a vi, ela cumprimentou-me com um longo sorriso. Não sei se era apenas uma impressão do meu estado de espírito, mas os seus lindíssimos olhos azuis pareciam estar maiores e mais brilhantes, carregados de uma expectativa silenciosa, como se aguardassem o desenlace da história que eu deixara a meio. Ela foi paciente, contendo a curiosidade até estarmos sentados lado a lado no trólei, o nosso refúgio em movimento, para finalmente exigir o resto da história.
Enchi-me de coragem e pedi-lhe para me deixar contar tudo até ao fim, sem me interromper. Ela obedeceu prontamente; virou-se para mim, procurando olhar-me directamente e, ao mesmo tempo, quem sabe, observar cada uma das minhas reacções.
Contei tudo. Narrei o jardim de Verão, o banco escondido, a ave do paraíso e aquele toque que me fizera levitar. No entanto, não consegui sustentar-lhe o olhar; os meus olhos fugiam dos seus porque temia encontrar ali uma censura, um muro que deitasse por terra a doçura da noite anterior. Por momentos, o silêncio instalou-se entre nós, apenas quebrado pelo balanço do trólei. Ela ficou calada, como se estivesse a pôr os seus próprios pensamentos em ordem — algo que eu, naquele estado de nervos, me sentia incapaz de fazer.
Depois do silêncio que pareceu durar uma eternidade, ela quebrou o gelo com uma pergunta que me desarmou:
— Então foi este sonho que te perturbou? Porque é que te perturbou tanto?
Esta era a interrogação que eu mais temia. Como explicar-lhe que o que sinto por ela é de uma intensidade tal que tenho receio de o pronunciar em voz alta? Procurei acalmar o meu espírito, buscando as palavras que não a afastassem de mim, e respondi:
— Sabes, Dila, há uns tempos atrás cometi um erro… sabes do que falo… — referia-me ao bilhete no qual lhe pedira namoro e que ela recusara. — … e este sonho, mesmo correspondendo àquilo que… — hesitei, procurando uma palavra que o meu pudor não encontrou — … tu sabes. Eu não queria voltar a passar pelo mesmo. Por isso preferia ter calado este sonho do que perturbar-te ou afastar-te de mim.
Ela olhou-me com uma clareza que só as almas puras possuem e respondeu com doçura:
— Compreendo o que queres dizer e entendo-te muito bem. Prezo muito a nossa amizade; por isso, se também a prezas tanto quanto eu, então está tudo bem.
Senti um peso imenso sair-me do peito. Suspirei de alívio e respondi-lhe com a prontidão de quem recupera o chão:
— Claro que sim. E por isso mesmo vou acompanhar-te a casa.
Dei por mim a sorrir, talvez um pouco pateta pelo alívio, e acrescentei para sacudir a solenidade do momento:
— Além disso, se não te acompanhar, como é que vou saber se não voltas a ralhar comigo por "não respirar"? Prometo que, desta vez, vou tentar manter os pés bem assentes no chão e os olhos na estrada, para não corrermos o risco de eu levitar e ir bater contra o teto do trólei.
Ela soltou uma risada cristalina, daquelas que dissipam qualquer sombra de constrangimento.
— Vê lá se te controlas, António! Não quero ter de explicar ao senhor revisor que o meu amigo decidiu voar a meio da viagem só porque estava distraído.
Daí adiante, o percurso até perto de casa dela foi leve, como se o ar de S. Pedro se tivesse tornado mais rarefeito e puro. Caminhámos lado a lado, tal como no meu sonho, partilhando o mesmo ritmo e o mesmo silêncio cúmplice, mas… as nossas mãos não se tocaram. Permaneceram guardadas, prisioneiras da realidade que a nossa amizade impunha, enquanto o Verão do meu sono se desvanecia perante o frio autêntico da tarde.
O resto do dia, para mim, simplesmente não aconteceu; eu não estive lá. Não houve cronómetro, nem obrigações, nem barreiras que me prendessem ao presente. Deixei-me levar, flutuando nos ecos daquela visão, sentindo ainda o calor fantasma da mão dela na minha. Recolhi-me na introspecção de quem salvou um tesouro do naufrágio: a amizade continuava intacta e o sonho, embora contado, permanecia vivo no meu íntimo.
Encerro este capítulo de Novembro com a alma em paz. As palavras que a voz não ousou dizer foram entregues pelo sonho, e o coração, embora ainda em sobressalto, repousa agora na certeza de que, entre nós, o que vai na alma é compreendido, mesmo quando fica por dizer.
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