A Geometria dos Passos e o Peso do Passado
Segunda-feira, 29 de Novembro de 1976
Hoje o dia amanheceu com o corpo a cobrar a factura da disciplina de hontem; dores em cada músculo, como se cada fibra tivesse ganho uma voz própria para reclamar do esforço. Mal me podia mexer. Sorri, porém, ao pensar que se dói é porque estou vivo, e estar vivo, agora, tem um propósito muito claro. Levantei-me a custo, mas o desejo de alcançar a paragem serviu de bálsamo, fazendo-me esquecer a rigidez das pernas em favor da urgência do coração. Dirigi-me à paragem.
Não demorei a encontrá-la. A Dila esperava-me com aquela alegria radiante que se tornou o meu farol. O seu sorriso, esse fenómeno que me faz estremecer e perder o norte, estava lá, intacto, à minha espera no meio do bulício matinal.
— Olá, António. Mais uma vez saíste a correr de casa. Porque não sais mais cedo? Assim vinhas nas calmas... — disse ela, antes que eu pudesse articular palavra.
Aquele "puxão de orelhas" derreteu-me por completo. Perceber que a sua preocupação comigo é genuína confere um sentido novo aos meus dias.
— Olá, Dila... porque é que me ralhas?... — balbuciei, tentando manter a pose.
— Mas... — ia ela replicar, mas atalhei logo: — Eu queria dizer que quando me ralhas me sinto um menino mal comportado, mas porque és tu que o dizes, só me apetece comportar bem.
Ela soltou uma gargalhada cristalina, rendida à minha confissão: — Eu não sou a tua mãezinha, mas acho bem que te comportes!
— Sim, mãezinha, prometo que me vou portar bem — respondi, fazendo um beicinho dramático que a fez rir ainda mais.
Já instalados no trólei, o sacolejar do veículo acompanhou o relato do meu domingo. Contei-lhe sobre o sarau, a densidade da palestra e o rigor do treino sob o frio de S. João da Madeira. Ela mostrou-se pesarosa pelas minhas dores musculares. Num breve instante, julguei ler nela o impulso de me pegar na mão, um gesto de conforto que morreu antes de nascer, disfarçado num ajuste apressado do vestido. Senti uma pontada de lamento; a rigidez das convenções e das instruções maternais pareceu-me, ali, uma barreira cruel. Se ela me tivesse dado a mão, o mundo não teria caído; pelo contrário, o meu coração ter-se-ia iluminado, retribuindo esse carinho com a pureza de quem sabe respeitar os limites invisíveis que nos rodeiam.
O assunto mudou para o livro que me emprestara. Perguntou-me o que é que já tinha lido. Respondi-lhe com a cautela de quem pisa terreno desconhecido:
— Por aquilo que li, o movimento começou no século XIX. Confesso que não percebi muito bem o que era o Corpo Governante e a Torre de Vigia.
A surpresa dela foi visível. Não esperava que eu tivesse mergulhado naquelas páginas com tanta prontidão.
— Surpreendeste-me, António. Não pensei que tivesses pegado no livro tão cedo — disse, com satisfação.
Explicou-me então que o Corpo Governante é o grupo que orienta as Testemunhas, ao contrário da hierarquia católica, e que a Torre de Vigia é o centro nevrálgico da sua fé, a sua sede mundial.
A conversa manteve-se acesa até ao Porto. À tarde, o destino permitiu-nos dilatar o tempo. Saímos na Adega Azul e decidimos caminhar por S. Pedro da Cova, num percurso que é, em si mesmo, um mapa da minha vida. Levei-a ao CRM, mostrei-lhe o edifício onde organizo arquivos e onde o nosso grupo se reúne. Seguimos pelo Poço de S. Vicente, passando pela caverna profunda onde os mineiros guardavam os explosivos — um lugar de sombras e silêncios antigos.
Falámos do "Bacalhau", o vagão que trazia o carvão das entranhas da terra e que, reza a lenda, um dia se soltou espalhando a tragédia. Subimos até ao "Monte", perto da casa dos antigos administradores, local de tantos encontros passados. Ali, o perigo de sermos vistos obrigou-nos à despedida. Vi-a afastar-se em direcção ao Largo da Farmácia, desaparecendo na esquina da sua rua.
Parti consciente de que aproveitámos a presença um do outro até ao limite. O "até amanhã" ainda ecoava nos meus ouvidos enquanto regressava. Foi uma parte do dia bem passada; o resto correu nos seus trilhos, sem se desviar do curso. Sigo adiante, leve, sem qualquer peso até a noite chegar.
Agora, o silêncio da noite cai sobre o meu quarto e as dores musculares parecem finalmente calar-se. Percebo, antes de fechar este diário, que não há treino de artes marciais que ensine a controlar a euforia de uma tarde partilhada ou o vazio que fica quando ela dobra a esquina. O dia encerra-se em paz, com o peso do livro azul na mesa e a leveza do seu riso na memória, enquanto o sono me reclama para que o amanhã chegue mais depressa.
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