O Equilíbrio entre o Corpo e a Alma

Domingo, 28 de Novembro de 1976

Tenho andado tão absorvido com a Dila e com as minhas emoções que tudo o resto parece não fazer parte da história da minha vida. Porém, a realidade é que habito outras vidas que não têm sido chamadas à existência nestes registos que faço no meu diário. Hoje foi um dia que saiu da rotina, embora não tenha abalado os pensamentos que trago resguardados naquele lugar privado que só a mim diz respeito.

A Academia Soshinkay festejou hoje o seu décimo aniversário e, por esse motivo, organizou um sarau em S. João da Madeira. O Mestre Tran Huu Ha marcou com a sua presença o momento alto da celebração. 

Foi um dia completamente preenchido. Houve uma palestra, longa e densa, sobre os aspectos filosóficos das Artes Marciais. Falou-se de equilíbrio, de controlo, de respeito, de caminhos interiores que não se vêem mas que se percorrem todos os dias. E enquanto ouvia, dei por mim a pensar — será que isto também se aplica ao que sinto? Será que o coração também precisa de disciplina?

Depois veio o treino.

Centenas de corpos em movimento, sincronizados, determinados, como se todos obedecessem a um mesmo pulso invisível. E ali, no meio de tudo aquilo, senti-me parte de algo maior… mas, ao mesmo tempo, estranhamente afastado. Como se uma parte de mim estivesse presente, mas outra continuasse noutro lugar — onde ela está.

De volta ao aconchego do lar e do meu quarto, posso finalmente descontrair e voltar a ser eu próprio: aquele rapaz que sonha e que sente, talvez em demasia, as dores do crescimento. Inevitavelmente, o meu pensamento deriva para a Dila. Da mesma forma que o corpo precisa de respirar para viver, eu preciso de sintonizar o meu coração para sentir que existo com um objectivo.

Talvez esteja a exagerar quando admito, no silêncio destas páginas, que não me vejo no futuro sem a Dila a meu lado. Mas o que sei eu, na verdade? Tenho dezasseis anos e o mundo inteiro pela frente. Será que este aperto no peito é apenas um rito de passagem? Não me posso iludir, pois nada sei do dia de amanhã. O melhor será avançar com calma, um passo de cada vez, como num treino de kata.

A Dila disse ontem que o futuro será longo e que teremos esse tempo todo para nós. Seria bom acreditar que ela se referia a nós, não como dois indivíduos isolados, mas como um destino partilhado. O tempo decidirá. Por agora, guardo o quimono e a filosofia, mas mantenho a esperança de que o amanhã traga de volta o azul do seu olhar.

Antes de fechar os olhos, percebo que a disciplina do corpo me ajuda a suportar a impaciência da alma. Hoje o cansaço é físico, mas o silêncio do domingo lembra-me que, por muito que eu treine a vontade, é na paragem do trólei que o meu verdadeiro mestre me espera com um sorriso. Amanhã a semana recomeça e, com ela, a única rotina que realmente me faz sentir vivo.


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