Entre o tempo que foge e o que promete ficar
Sábado, 27 de Novembro de 1976
Agora que o fim-de-semana espreita, começo a sentir uma certa ansiedade por saber que aquela que é o foco dos meus dias, e a musa que me impele a escrever, vai estar brevemente comigo para depois se desvanecer por um longo período de tempo. Noutros tempos, sabia que nos iríamos ver e estar juntos; agora, as amarras da sua casa e a vigilância apertada dos seus pais tornam impossível corrermos o risco de repetir os momentos dramáticos que outrora nos separaram. Por isso, quando me levantei esta manhã e fui ao encontro da Dila, levava comigo este pensamento pesado. Juntos, uma vez mais, no nosso encontro matinal, prometi a mim mesmo desfrutar ao máximo da sua companhia.
Ela esperava-me com aquele sorriso de que nunca me irei esquecer. Trazia um vestido azul-claro com umas bolinhas brancas e, por cima, um casaco de malha bege apertado, que deixava antever o seu pescoço de um rosado pálido. Este conjunto destacava o perfil feminino que já começara a despontar nela. Trazia os cabelos soltos, esvoaçando na brisa que se fazia sentir, e os seus olhos azuis penetrantes faziam-me sonhar acordado. A sua voz jovial era para mim como o canto de uma sereia, prendendo-me ao som de cada palavra.
Trocámos breves cumprimentos e, depois, sentados lado a lado, conversámos sobre o mundo que nos rodeia. Porém, não consegui evitar falar sobre o fim-de-semana que se desenrolava à nossa frente e que nos ia separar, ainda que temporariamente, por um dia e meio. Para mim, confessei-lhe, era tempo demais.
Ela parou, como que a reflectir no que havia de dizer, e verbalizou o seu próprio pensamento com uma calma que me desarmou:
— Tens razão, António, é muito tempo. No entanto, ainda somos muito jovens para nos preocuparmos com o tempo que não vamos ter. Lembra-te que o futuro, espero, será muito longo e, por isso, iremos ter esse tempo todo para nós.
Seria uma promessa? Uma confissão? Como era possível palavras tão sábias serem proferidas por ela com tanta naturalidade? Senti que, uma vez mais, ela conseguia ser mais adulta do que eu.
— Claro que tens razão — admiti. — Mas isso não impede que eu me sinta inconformado por ficarmos longe um do outro.
Sorriu piedosamente e, olhando-me fixamente, retorquiu: — Eu sei o que estás a pensar e a sentir. Dizes que falo palavras sábias, porém não são minhas. Talvez a minha educação e formação religiosa estejam a colocar na minha boca as aprendizagens que agora escutas. A propósito, tenho aqui um livro para ti.
Entregou-me um exemplar azul com o título "Testemunhas de Jeová", dizendo que eu o deveria ler atentamente para procurar saber como funciona a sua igreja e os seus ensinamentos. Recolhi-o como um tesouro e prometi que o leria com toda a atenção. Com um sorriso maroto, acrescentou:
— Se leres esse livro no fim-de-semana, pensa que estarás comigo. Vais ver que o tempo passa melhor.
Ia responder-lhe que nada, nem mesmo a fé, superava a sua presença real, mas contive-me e acenei em concordância. Acompanhei-a em passo lento ao seu liceu, como se o caminho não tivesse pressa de encontrar o seu destino. Despedimo-nos com um "bom fim-de-semana", que me foi doloroso dizer. Não despreguei o pé; fiquei a vê-la afastar-se graciosamente até desaparecer nas entranhas do Rainha Santa Isabel.
O resto do dia? Não sinto grande ânimo em o descrever. Passou-se, para mim, sem grande história. O CRM já não era um destino, mas sim um compromisso que tinha de cumprir, e por isso as horas passaram demasiado lentas para o meu gosto. O tempo foi-se arrastando pesadamente até à noite. Só despertei verdadeiramente agora que, fechado no meu quarto, peguei no diário e na esferográfica para registar tudo o que iluminou este dia.
Escrever traz-me de volta ao mundo dos vivos; é o meu modo de garantir que, venha o que vier amanhã, estas memórias farão eco no futuro, impedindo que o tempo as apague. Ao olhar para o livro azul sobre a mesa, percebo que este silêncio de Sábado é, afinal, o preço que pago por um futuro que ela diz ser nosso. Fecho os olhos com o som das palavras dela a ecoar, tentando acreditar que ler sobre a sua fé me trará, de facto, o seu rosto para junto de mim.
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