O Alento do Reencontro

Sexta-feira, 26 de Novembro de 1976

Ontem, quando me deitei, empurrei para os meus sonhos a preocupação sobre o que teria acontecido à Dila. A noite foi agitada e o descanso tornou-se um pesadelo de sombras. Hoje, ao acordar, senti no peito uma pressão que me roubava o ar. Estava ansioso, sem dúvida; eu sabia bem porquê. Precipitei-me para a rua sem sequer tomar o pequeno-almoço. Não me preocupava o sustento do corpo, mas sim o da alma, que parecia murchar com a dúvida.

Voei rua abaixo com milhentos pensamentos negros a atropelarem-se na minha cabeça. Teria acontecido algo grave? Estaria ela bem? A impaciência e o medo aliaram-se, empurrando-me em frente com tal força que quase perdi o fôlego. Era horrível esta sensação de impotência, o não ter forma de saber, nem que fosse indirectamente, se algo ocorrera. O silêncio de ontem foi um muro intransponível. Mas agora a verdade estava perto, e a minha única esperança era vê-la bem e sorridente.

Cheguei à paragem. Estava cheia de gente, um formigueiro humano que reclamava dos atrasos dos transportes. Procurei-a com o olhar, desesperado, até que… lá estava ela. Encostada ao muro, afastada da turba, recatada no seu espaço e encolhida com receio dos atropelos da multidão.

Olá, Dila — consegui articular, mal cheguei à sua beira.

Olá, António — cumprimentou-me, com um sorriso angelical.

Ela estava bem. Suspirei de alívio e precisei de um momento parado para recuperar o fôlego da correria louca que empreendera.

Está tudo bem contigo? Estás bem? Aconteceu-te alguma coisa? — perguntei, tudo de uma assentada, sem respirar.

Sim, está tudo bem… — respondeu ela, fitando-me com um olhar inquiridor. — Porque perguntas? Tu estás bem? Porque vieste a correr?

Já recomposto fisicamente e com o coração mais aplacado, expliquei-lhe: — Ontem não apareceste e eu fiquei muito preocupado.

Não apareci? Tu é que não apareceste, nem no liceu nem em S. Pedro — respondeu ela, com um olhar desconfiado que me apanhou de surpresa.

Então percebi tudo. Não passara de um desencontro em cadeia. Expliquei-lhe que queria surpreendê-la, que almoçara na cantina só para a ir buscar à saída e voltarmos juntos. Ela riu de forma graciosa, aquele riso que ilumina a rua toda.

Então foi isso que aconteceu? Querias surpreender-me e foste surpreendido. Eu não tive a última aula, por isso saí mais cedo. Ainda passei à porta do teu liceu para ver se te via, mas era pouco provável, por isso voltei para casa sozinha, sem ti. Vês? Foi só isso.

Ainda bem que nada te aconteceu. Fiquei mesmo muito preocupado. Não importam as horas que esperei por ti. Prometo que, de futuro, não te farei este tipo de surpresas; direi sempre as minhas intenções — respondi, sentindo um peso enorme sair-me dos ombros.

Então estavas assim tão preocupado comigo? — disse ela, num tom tão meigo que me deixou completamente desarmado. Tive de desviar o olhar para esconder a emoção e o desejo súbito de a abraçar ali mesmo, à frente de todos.

É verdade… promete-me que não voltas a preocupar-me — implorei, mesmo sabendo que a promessa era frágil num tempo em que não temos como nos chamar numa emergência.

Ela sorriu ternamente. Percebeu o que eu estava a sentir; deixei que as minhas emoções transbordassem e se tornassem visíveis. Naquele momento, eu era um livro aberto que ela podia desfolhar página a página, desvendando todos os segredos do meu coração.

Chegámos ao Porto e prometemos novos encontros que, infelizmente, não íamos poder cumprir hoje, pois os nossos horários interpuseram-se à nossa vontade. 

De volta a casa, o meu coração estava finalmente pacificado. O resto do dia fluiu como um pequeno ribeiro que corre calmamente entre as curvas de um vale sem horizonte. 

A noite caiu e, com ela, levou o medo e a ansiedade que me roeram as horas. O silêncio, o céu estrelado e uma aragem fria vinda do norte são agora a minha companhia. Antes de cerrar os olhos, percebo que este susto foi o espelho da minha entrega: descobri que o meu maior medo não é a espera, mas o silêncio dela, e que saber que ela também me procurou é o que me dá solo para caminhar amanhã.