O Sorriso que faz o Sol Despontar

Quinta-feira, 25 de Novembro de 1976

Sempre que a noite me empurra para dentro do quarto e eu giro o botão do rádio até encontrar aquela voz distante que me acompanha, sinto que o dia ainda não terminou. Falta-lhe o último sopro: sinto que o dia só termina verdadeiramente depois de escrever o que me vai na alma e dos acontecimentos do dia. Só quando pouso as palavras no papel é que o dia se rende e aceita morrer em paz. Mas há dias em que as palavras fogem — escondem-se como se soubessem mais do que eu — e deixam-me ali, a olhar para o vazio do que senti. Nem sempre é fácil escrever porque muitas vezes me faltam as palavras que realmente reflictam o que me vai no coração.

A manhã, como todas as manhãs do passado recente, dá-me ânimo e vitalidade para sair de casa, para respirar e principalmente para ajustar as batidas do meu coração. As manhãs dão-me o impulso e a vontade de viver o dia. Sempre que saio de casa, os meus pés correm pela rua abaixo para apanharem o meu coração que se encontra naquela paragem iluminada por um sorriso que me faz sentir o centro do universo. O caminho passa por mim como se eu não fizesse parte do percurso. Passo como uma brisa de Verão que nunca fica muito tempo no mesmo lugar.

Cheguei à paragem e ela não estava, ainda não havia chegado. Mas estava eu a reservar aquele lugar para o momento de nos encontrarmos. O tempo foi passando. Não desesperei, aguardei porque acreditava que o tempo estava do meu lado. Assim foi, ela surgiu esbaforida e um pouco desgrenhada, mas continuava linda. Quando me viu, sorriu e o sol despontou para mim.

— Desculpa António. Hoje fui eu que me atrasei — disse.

Respondi simulando tristeza: — Pois… senti-me aqui abandonado… — e continuei num tom dramático: — Perdido como um náufrago.

Ela olhou para mim e por momentos não sabia se havia de rir ou descompor-me, mas acabou por dizer: — Estou a ver a tua aflição daqui. Deves ter sofrido muito. Nem deste conta que eu não estava aqui.

Reclamei por justiça: — Sinto-me duplamente injustiçado pois sofri e penei longas horas…

Interrompeu-me: — Longas horas?

Continuei: — Para mim todos os minutos que passaram foram horas…

— Ahhh estás tão dramático hoje — disse.

— Por isso devias ser benevolente comigo, depois de tanta dor — repliquei.

— Voltamos ao mesmo. O que queres que faça? — disse ela.

— Basta-me um sorriso teu — fui dizendo.

— Mas eu sorri-te quando cheguei — Começou a dizer e, percebendo o quanto eu estava enlevado com a presença dela, deu-me o seu melhor sorriso de sempre, derretendo o meu coração palpitante.

Eu ia reclamar por mais, mas ela foi implacável: — Está aí o trólei, chega de brincadeira, vamos lá entrar.

Segui-a em silêncio e foi então que percebi que ela não era só dona do meu coração, também comandava a minha vontade.

A viagem prosseguiu comigo enlevado pela presença dela enquanto ia absorvendo as suas palavras e desenhando mentalmente os seus gestos. Ao observá-la ali, sentada no banco do trólei com o olhar perdido na paisagem que corria lá fora, perguntei-me se ela sentiria a mesma urgência que eu, ou se a sua mente estaria apenas ocupada com as obrigações do liceu e a vigilância constante da mãe que a obrigava a evitar-me. Na minha cabeça, eu só queria que aquela viagem não acabasse, porque ali, naquele banco estreito, eu sentia que ela era minha, mesmo sem o ser.

Chegados ao Porto, acompanhei-a até ao seu liceu e despedimo-nos com um "até logo". Eu já tinha decidido almoçar na cantina para assim lhe fazer a surpresa quando ela saísse. Nem sempre os planos que fazemos dão certo e foi isso que aconteceu. Depois de almoçar, corri para o liceu ao lado para surpreender a Dila. Esperei. Desta vez foram horas sem qualquer drama. Ela não apareceu. Voltei para casa apreensivo. Teria acontecido alguma coisa?

O resto do dia perdeu a sua luz. A minha luz. Por isso deixei que as horas tomassem conta de mim e me empurrassem até a noite cair. 

Hoje aprendi que a alegria pode caber num sorriso… e a inquietação numa ausência. E que o coração, esse teimoso, tanto acredita no tempo quando ele traz… como desconfia dele quando leva. Talvez esteja a aprender, sem querer, que amar também é isto: esperar sem garantias, mas continuar a acreditar mesmo assim.

Ao fechar este Diário, percebo que a minha serenidade está refém de um portão que não se abriu e de uma explicação que ainda não chegou; é o risco de ter o coração depositado noutra pessoa. Decidi para mim que nada de mal deve ter acontecido, por isso amanhã será um novo dia e tudo será explicado e compreendido.


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