Entre o que se diz e o que se adivinha
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Quarta-feira, 24 de Novembro de 1976
O dia nasceu como se ontem não tivesse terminado. Havia ainda um eco no ar — uma continuação invisível do que tinha ficado por dizer. O frio da manhã mordia de leve, e o sol, tímido, espreitava por detrás da Serra da Pia, como quem não quer incomodar.
Saí apressado. Não por atraso, mas por impulso. Os meus passos já sabiam o caminho de cor: iam direitos a ela.
E lá estava a Dila.
Imóvel, mas distante. Não no corpo — esse estava ali — mas no pensamento, que parecia viajar por paragens que eu ainda não conhecia. Aproximei-me devagar, quase em silêncio, como quem entra num sonho alheio sem querer acordá-lo. Toquei-lhe ao de leve no ombro.
Sobressaltou-se primeiro. Depois sorriu.
— Assustaste-me…
— Desculpa, estavas tão concentrada nos teus pensamentos que não viste que estava à tua beira. — respondi
— Da próxima vez põe-te em lugar que te veja — retorquiu
— Da próxima vez fico ao teu lado para tentar perceber em que estás a pensar? — pisquei-lhe o olho, num ar meio cómico, meio ousado.
— Continuas a brincar… — respondeu, tentando vestir uma seriedade que não lhe assentava por completo. E acrescentou: — Nunca irás conseguir saber os meus pensamentos.
Sorri. Havia ali um desafio escondido.
— Se calhar até sei em que estarias a pensar, porque se fosse ao contrário também estaria a pensar o mesmo.
Ela virou-se mais para mim, curiosa.
— Estarias a pensar o mesmo? Diz-me então em que é que estarias a pensar.
Senti o coração a apertar ligeiramente. Havia momentos em que as palavras custavam mais do que deviam.
— Se eu estivesse no teu lugar, significa que estaria à tua espera, logo… — fiz uma pausa breve, como quem mede o risco — estaria a pensar em ti.
Disse-o. E ao dizê-lo, senti que tinha atravessado uma linha invisível.
Ela olhou-me. Vi o rubor subir-lhe ao rosto, como uma resposta que ainda não sabia ser dita.
— Quem te disse que eu estaria a pensar em ti?
Desta vez não pensei. Respondi.
— Disseste-me tu com o teu sorriso quando viste que era eu.
Mal acabei de falar, percebi: tinha-me revelado mais do que queria. Ou talvez exactamente o que queria, mas sem defesas.
Ela voltou a corar.
— Eu sorrio sempre.
E talvez sorrisse. Mas nem todos os sorrisos são iguais — e nós sabíamos isso, mesmo sem o dizer.
O trólei chegou como um salvador discreto. Interrompeu-nos antes que fôssemos mais longe do que devíamos. Ou antes do tempo certo.
Sentámo-nos lado a lado. E, como se um acordo silencioso tivesse sido assinado entre nós, mudámos o rumo da conversa. Voltámos ao livro, ao pacto de ontem, à religião e à evolução.
Ali, as palavras tornaram-se mais seguras. Falámos de ideias, de crenças, de teorias. Discutimos Adão e Eva, Darwin e a origem da vida, cada um defendendo o seu território com firmeza, mas sem nunca atacar o outro. Era um confronto limpo, quase bonito.
E, no meio de tudo isso, havia algo maior do que qualquer argumento: o prazer de estarmos ali, juntos, a pensar em voz alta.
Chegados ao destino, despedimo-nos sem grandes demoras. O dia puxava-nos para lados diferentes, como sempre.
As aulas passaram sem relevo. E, como já começava a ser hábito, regressei sozinho a casa. A Dila ficou a almoçar no liceu — uma ausência que já não estranhava, mas que também nunca se tornava indiferente.
Almocei depressa e voltei à paragem. Esperá-la tornou-se um gesto natural, quase necessário. Quando chegou, retomámos o caminho como se a conversa da manhã tivesse ficado apenas em pausa.
Falámos muito. Caminhámos pouco.
O tempo, esse, não quis colaborar. Empurrou-nos para a despedida mais cedo do que desejávamos.
— Até amanhã — dissemos, com aquela leveza que esconde sempre um pouco de vontade de ficar mais.
E seguimos cada um o seu caminho.
A tarde trouxe de volta a rotina: o Centro, os estudos, os resumos escritos à máquina, os gestos repetidos que organizavam os dias. Mas havia uma diferença subtil — como uma música de fundo que já não se consegue ignorar.
À noite, o descanso chegou sem esforço. O corpo cansado, a mente cheia.
E o coração… esse, inquieto, mas sereno.
Hoje foi o dia em que as palavras começaram a tocar o que antes era apenas silêncio. Entre brincadeiras e defesas, deixámos escapar pequenas verdades. Ainda tímidas, ainda disfarçadas — mas reais. Há sentimentos que não se dizem de uma vez; vão-se revelando assim, em fragmentos, como luz a atravessar uma fresta. E talvez seja isso que lhes dá valor: o tempo que levam a nascer.
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