O Embate das Ideias e o Refúgio do Coração
Terça-feira, 23 de Novembro de 1976
Hoje levantei-me sem qualquer peso no corpo ou na alma. Depois de uma noite pacífica e serena, sem memória de qualquer sonho pesado, senti que o mundo despertava comigo. Desci a rua com o meu passo acelerado para não fazer esperar a Dila, que já deveria estar no local do costume. E lá estava ela, deslumbrante, com aquele sorriso que me desarma sempre e que me encanta sem remédio.
— Olá, António. Vens muito bem disposto — notou ela, fitando-me com aqueles seus olhos lindos, de um azul que parece vir do céu.
— Claro que sim, Dila. Tenho todos os motivos… — respondi, refreando as palavras que o meu coração teimava em querer denunciar.
— Sim? E que motivos são esses? — retorquiu ela, simulando um ar sério que não conseguia esconder o quanto ela já sabia sobre as minhas motivações.
— Ora… bem… — titubeei, tentando recuperar o fôlego — Estás aqui, estou aqui… logo, está tudo bem — concluí, sentindo o coração palpitar com força contra o peito.
A resposta dela perdeu-se no ar, pois o trólei surgiu na curva. Subimos para o piso superior e encontrámos lugar, sentando-nos lado a lado, como se o mundo lá fora não contasse.
— Tenho uma proposta para te fazer — disse-lhe, antes que ela pudesse retomar o assunto da paragem.
Ela olhou para mim com um ar um pouco apreensivo, como se tentasse adivinhar se eu estaria prestes a cometer o mesmo erro anteriormente, quando lhe pedi namoro. Percebi de imediato o que lhe ia na alma e adiantei-me:
— Gostava que me ensinasses mais sobre a tua religião. O que são as Testemunhas de Jeová?
A Dila sorriu, soltando um longo suspiro de alívio.
— Claro que sim. E qual é a proposta? — perguntou, agora mais curiosa.
— Em troca, eu falar-te-ei sobre a evolução das espécies. Aceitas?
Com um sorriso ainda maior, ela concordou, visivelmente mais descansada do susto que apanhara. Seguimos o resto da viagem a "discutir" a existência de Adão e Eva contra a evolução natural de Darwin. Foi um embate intenso, mas delicioso; um encontro de ideias que, embora se desencontrassem no papel, não nos dividiam no afecto.
Depois de a acompanhar ao liceu, e como a primeira aula me dera folga, fui a uma livraria buscar um volume que tinha em mente: "Revolução Biológica". Infelizmente, quando as aulas terminaram, tive de regressar sozinho, pois ela ficou a almoçar no liceu. A viagem de volta pareceu mais cinzenta sem a sua companhia.
Chegado a casa, almocei apressadamente e parti de novo para a paragem, ansioso por a ver chegar. Acompanhei-a sem pressa até o mais perto possível de sua casa para não levantar suspeitas à sua mãe. Pelo caminho, entreguei-lhe o livro que comprara de manhã.
— É para darmos continuidade ao nosso acordo — disse-lhe.
Ela sorriu e concordou com a cabeça. O resto do dia passou como uma réplica dos anteriores, sem grande história, repetindo os mesmos passos e as mesmas acções, mas sempre com o eco daquela conversa no trólei a ressoar-me na memória.
Aqui sentado, à luz do candeeiro, revejo as horas que passaram. É curioso como a ciência e a fé se encontraram hoje naquele banco de trólei. Na verdade, pouco me importa se viemos do barro ou das estrelas, desde que o meu caminho se cruze com o dela.
Sinto que dei um passo importante. Ao pedir que me fale da sua religião, não procuro apenas respostas divinas; procuro entender o que molda o coração da Dila. O livro que lhe dei é um convite para ela entrar no meu mundo, tal como eu quero entrar no dela. Se a biologia explica a vida, só o carinho dela explica por que razão a minha vida faz sentido agora.
Amanhã continuaremos esta "disputa" de ideias, mas, no fundo, sei que já ganhámos os dois.
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