Onde o Meu Coração se Refugia

Segunda-feira de 22 de Novembro de 1976

Depois do dia terrível de ontem, cheguei a crer que o peso do corpo me manteria preso ao leito, incapaz de enfrentar a luz. Mas o desânimo não podia vencer; havia um compromisso sagrado, uma promessa muda de ir ter com a Dila.

Levantei-me a custo, desafiando a vontade de ficar parado, mas, para minha surpresa, o mal-estar parecia ter-se dissipado com o orvalho da manhã. A indisposição atroz passara por completo e o olho, antes tão fustigado, apresentava já um aspecto aceitável. Caminhei ligeiro até à paragem e, como se o destino quisesse recompensar o meu esforço, lá estava ela. A Dila aguardava-me, ostentando nos lábios aquele sorriso que possuía o condão de apagar, num instante, todas as amarguras anteriores.

— Olá, António. Hoje não vens esbaforido — notou ela, cravando em mim um olhar que se tornava, a cada segundo, mais atento e curioso.

— Tens razão, Dila. Hoje não houve necessidade de correr — respondi, tentando disfarçar o cansaço que ainda me restava na alma.

O trólei aproximou-se com o seu ruído característico. Entrámos e encontrámos refúgio num assento, lado a lado. Foi então que ela se voltou para mim, frisando a testa num gesto de dúvida, e inquiriu com uma ansiedade que lhe tingia a voz de preocupação:

— Estás pálido. Aconteceu alguma coisa? Estás doente?

— Não é nada — tranquilizei-a. — Ontem, por um motivo que desconheço, senti-me muito maldisposto e, à tarde, o olho inchou-me sobremaneira. Creio que a febre me visitou durante a noite, mas agora sinto-me restabelecido. Não te preocupes.

— Não me parece que estejas assim tão bem… estás sem cor, muito pálido — insistiu ela, o cuidado reflectido no rosto.

Num gesto de uma delicadeza extrema, tocou-me na mão para aferir a temperatura. Sentiu-a fria.

— Ao menos não tens febre agora — concluiu, mais aliviada.

Fiquei sem palavras. Aquele toque carinhoso, a preocupação genuína com que me observava, aqueceram-me o coração de uma forma que as palavras mal conseguem descrever. É uma tarefa impossível não a amar; é impossível não nutrir os mais profundos afectos por aquele anjo que a vida, num rasgo de generosidade, colocou no meu caminho.

A viagem prosseguiu e eu, em silêncio, deixava-me guiar pelas batidas do meu coração, que acompanhavam cada gesto e cada palavra da Dila. Acompanhei-a até ao liceu. À despedida, deixou-me com um sorriso tingido de melancolia:

— Se não te sentires melhor, peço-te que vás para casa.

— Eu hei-de estar bem… já me sinto muito melhor — respondi-lhe. Mas, no íntimo, pensei: estou melhor porque estive contigo. — Não te preocupes. Logo estarei aqui à tua espera — rematei com um suspiro que o vento se encarregou de esconder.

Quando as aulas findaram, o meu corpo já reclamava a sua presença. Vi-a subir a rua e o reencontro foi imediato.

— Como estás? — perguntou, ainda em busca de sinais de fraqueza.

— Como podes ver, já estou bem — assegurei-lhe.

Tomámos novamente o trólei. Desta feita, o veículo seguia repleto, obrigando-nos a procurar um canto onde ficámos de pé, frente a frente. A estrada, irregular, impunha solavancos constantes que nos empurravam um contra o outro. Procurei, com o meu corpo, protegê-la da rudeza dos encontrões dos demais passageiros, criando um pequeno reduto só nosso. O burburinho ruidoso da multidão impedia qualquer diálogo profundo, pelo que nos limitámos a trocar sorrisos a cada balanço do carro, numa conversa muda que só os olhos entendem.

Chegados a S. Pedro, caminhei ao seu lado até perto da sua residência. Despedimo-nos com a promessa solene de um novo encontro amanhã. O resto do dia escorreu calmamente, sem a pressa de quem já não tem outro destino que não seja a memória.

Agora, aqui sentado no meu quarto, com o diário aberto sobre a secretária, invade-me uma sensação de conforto que me abraçou durante todas estas horas. O carinho da Dila e a sua comoção perante o meu estado levaram-me a acreditar, com uma fé inabalável, que encontrei a minha alma gémea. Resta-me agora a hercúlea tarefa de magicar uma forma de superar o que nos separa.

Amanhã… amanhã verei o que o destino reserva.


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