Quando o corpo se revolta contra o silêncio
Domingo, 21 de Novembro de 1976
Domingo. Um daqueles dias que nascem condenados ao esquecimento — ou assim eu pensei.
Preparei-me para a solidão como quem fecha a porta ao mundo por vontade própria. Refugiei-me no quarto, na minha pequena caverna, com um livro por companhia e a música como pano de fundo. Era esse o plano: existir pouco, sentir o mínimo, deixar o dia passar por mim sem deixar marcas.
Nem sequer tive vontade de espreitar lá fora. Como se o mundo, sem ela, tivesse perdido a cor.
Mas enganei-me.
O dia não quis ser ignorado — e fez-se notar da pior maneira.
Depois do almoço, o corpo começou a ceder. Primeiro um desconforto leve, quase tímido… depois um enjoo que cresceu, tonturas que me puxavam para baixo, como se o chão tivesse decidido fugir-me dos pés. Senti-me traído por mim mesmo, como se o corpo reclamasse da decisão de me esconder da vida.
Há uma ironia cruel nisto: quando viramos costas ao mundo, às vezes é o mundo que entra por nós dentro sem pedir licença.
A meio da tarde, como se não bastasse, surgiu uma dor aguda no olho — uma inflamação que latejava, insistente, impossível de ignorar. Fez-se dona do meu rosto, roubou-me o conforto, tirou-me até as pequenas fugas que ainda tinha. Já não conseguia ler. A música, que tantas vezes me salvava, tornou-se apenas ruído.
Fiquei ali, reduzido a mim mesmo.
Sem distrações. Sem fuga.
A miséria, às vezes, não grita — instala-se devagar e senta-se ao nosso lado como uma velha conhecida.
E à noite, a febre chegou. Silenciosa no início, depois dominante. Tomou conta de mim como um manto pesado, quente, inevitável. O corpo rendido, a mente inquieta.
Mas no meio de tudo isto… havia uma única preocupação, firme, teimosa, quase absurda na sua simplicidade:
Amanhã tenho de estar bem.
Não por mim.
Por ela.
Porque há encontros que não se podem falhar — não por obrigação, mas porque são o único lugar onde tudo volta a fazer sentido.
E assim fiquei, entre o desconforto e a esperança, agarrado a essa ideia como quem segura uma luz frágil no meio da noite.
Se o corpo decidir lutar contra mim… amanhã veremos quem vence.
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