Entre a pressa e a ausência anunciada

Sábado, 20 de Novembro de 1976

O dia nasceu com a mesma urgência dos anteriores — como se o tempo tivesse ganho o hábito de me perseguir. Saí em jejum, mais uma vez, a correr atrás de um instante que não queria perder. Havia um ponto marcado no mapa do meu dia: a paragem da Adega Azul. E quando lá cheguei, ela já lá estava… à minha frente, como quem chega sempre primeiro ao essencial.

Recebeu-me com um sorriso que trazia dentro uma pequena reprimenda.

— Atrasado de novo. Não tens emenda, António.

Sorri. Não havia defesa possível — nem vontade de a ter.

— Posso demorar a chegar, Dila… mas nunca irei faltar.

A frase saiu-me com mais verdade do que intenção. Ficou ali, suspensa entre nós, a dizer mais do que aquilo que as palavras ousam. Sorri, mas era um sorriso comprometido, desses que carregam promessas que ainda não foram feitas em voz alta.

Ela percebeu. Vi-o no sorriso que se abriu de novo — mais suave, mais cúmplice.

Entrámos no trólei, e desta vez o destino ofereceu-nos um pequeno luxo: um lugar no piso de cima, mais resguardado, quase secreto. Ali, o mundo ficou lá em baixo, distante, irrelevante. Durante quarenta e cinco minutos, tudo fez sentido. Cada segundo ao lado dela parecia compensar as horas em que não estava.

Há presenças que não ocupam espaço — ocupam-nos por dentro.

Acompanhei-a ao liceu, como sempre. Já era um gesto natural, quase inevitável. Mas antes de se despedir, disse-me, com uma simplicidade que me apanhou desprevenido, que ia sair mais cedo das aulas. Que não voltaríamos juntos a S. Pedro.

Foi como se alguém tivesse apagado a luz de um dia que ainda nem tinha começado.

Disse-lhe que ficava triste. Não fiz teatro. Não sabia fingir com ela.

Ela respondeu com um sorriso… mas desta vez havia nele uma sombra leve, quase imperceptível.

— O tempo passa depressa… segunda-feira já estamos juntos outra vez.

Disse-o como quem tenta consolar — e talvez se consolar também. E naquele instante percebi: não era só eu a sentir a ausência antecipada. Estávamos os dois no mesmo barco, como dois remadores silenciosos, empurrando o tempo para a frente com a mesma vontade de chegar mais cedo ao reencontro.

Despedi-me dela com essa certeza doce e amarga.

O resto do dia foi ocupado, cheio de pequenas tarefas no Centro. Uma azáfama útil, quase necessária. Trabalhei, escrevi, cumpri. E foi bom. Não por entusiasmo — mas por defesa. Porque o movimento impede o pensamento de se demorar onde dói.

Há dias assim: em que nos ocupamos não para construir… mas para não cair.

E mesmo assim, por entre uma tarefa e outra, havia sempre um espaço vazio — um intervalo onde o pensamento teimava em regressar a ela.

Segunda-feira parecia tão longe. E ao mesmo tempo, era tudo o que eu tinha à frente.

Engraçado… o futuro, afinal, às vezes resume-se a um simples reencontro.


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