A pressa de chegar onde o coração já estava
Sexta-feira, 19 de Novembro de 1976
Acordei como quem chega atrasado à própria vida. Havia uma urgência em mim que não era do tempo, era do sentir. Saí sem pequeno-almoço, como se o corpo fosse um detalhe dispensável quando o destino chama mais alto. A rua abriu-se à minha frente e eu atravessei-a em corrida, com o ar frio a desalinhavar-me o cabelo e os pensamentos.
E então… lá estava ela.
À minha espera, como se o mundo tivesse combinado esse instante em segredo. O sorriso dela não foi um gesto — foi uma rendição. E eu rendi-me sem luta, como quem finalmente percebe que há batalhas que não fazem sentido vencer.
— Chegaste primeiro novamente — disse-lhe, meio ofegante, meio feliz.
— Tens de vir mais cedo se queres chegar primeiro — respondeu, com aquela leveza que parece não pesar em nada… mas pesa em tudo.
Aceitei. Não havia argumento possível contra a doçura.
Entrámos no trólei. Ficámos próximos, mais do que o espaço permitiria noutras circunstâncias. Falámos de tudo e de nada — e isso bastava. Às vezes, o essencial não está no que se diz, mas no silêncio confortável entre duas palavras. Respirávamos o mesmo ar como se isso fosse já uma forma de pertença.
No Bonfim, acompanhei-a. Despedimo-nos com um “até logo” que trazia dentro mais promessa do que despedida. Vi-a entrar no liceu, e só depois segui caminho. Há gestos que são quase rituais — e este já começava a ser um.
As aulas passaram como quem não quer incomodar. O tempo, cúmplice, decidiu não se arrastar hoje. Quando terminaram, fui esperá-la. E quando voltou a aparecer, trouxe consigo aquele riso leve, quase musical, que me empurra para versões mais ousadas de mim mesmo. Na viagem de regresso fiz disparates, inventei gestos, criei pequenas cenas só para a ver rir.
E ela riu.
E isso bastou para justificar tudo.
Em S. Pedro, acompanhei-a até onde a prudência permite e o desejo resiste. É sempre ali, nesse limite invisível, que se aprende o peso das coisas não ditas. Mas mesmo assim, saí de perto dela com uma estranha sensação de plenitude. Como se, por instantes, tivesse acertado no lugar certo do mundo.
A tarde seguiu sem sobressaltos. O Centro recebeu-me como sempre — tarefas, sumários, pequenas responsabilidades que ajudam a manter os pés no chão quando a cabeça insiste em voar. Cumpri o que tinha a cumprir, como quem honra uma rotina que ainda faz sentido.
Agora, aqui no quarto, olho para dentro e quase não me reconheço. Há uma mudança silenciosa a acontecer em mim. Já não caminho com o peso do receio. O futuro deixou de ser uma ameaça distante e passou a ser apenas… um caminho.
E curiosamente, não quero mais do que isto.
Talvez a sabedoria esteja mesmo aqui — neste instante simples, neste equilíbrio frágil entre o que se tem e o que se sonha.
O resto… virá. Ou não.
E, pela primeira vez, isso não me inquieta.
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