O dia em que o tempo se sentou ao nosso lado

Quinta-feira, 18 de Novembro de 1976

Acordei como quem regressa de um lugar onde tudo faz sentido. A noite deixou-me nos lábios um sorriso manso, desses que não pedem licença para existir. Havia uma leveza em mim, quase irreal, como se o corpo fosse apenas um pretexto para o coração chegar primeiro.

E chegou.

Na paragem, lá estava ela. A Dila, quieta no seu próprio mundo, como se o tempo a respeitasse e passasse mais devagar à sua volta. Havia qualquer coisa nela que não se explica — não é beleza apenas, é presença. Uma espécie de luz discreta que não pede atenção, mas rouba-a toda.

Quando me aproximei, ela olhou-me. E sorriu.

Há sorrisos que são cumprimentos. Aquele não. Aquele foi um convite.

— Olá Dila… — disse eu, tentando parecer dono de mim, quando na verdade já não o era.

— Olá António… — respondeu ela, e os olhos dela fizeram o resto do trabalho que as palavras não conseguem.

Falei por falar, como quem atira uma pedra à água só para ver os círculos formarem-se.

— Já estavas aqui há muito?

— Cheguei uns minutos antes de ti. Quase nos encontrávamos no caminho.

Quase. Essa palavra ficou ali, a pairar entre nós.

— Foi pena… — deixei escapar.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça, curiosa:

— Pena? Porquê?

E eu, sem escapatória:

— Porque podíamos ter vindo juntos.

Disse-o como quem se atira ao frio. Não morri. Pelo contrário, vivi um pouco mais.

O trólei chegou, salvando-me e condenando-me ao mesmo tempo. Sentámo-nos lado a lado. E ali, naquele espaço estreito entre dois bancos gastos, cabia um mundo inteiro. Ela falou do tempo, das aulas, de coisas simples. E eu ouvi tudo como se fossem segredos importantes. Porque eram dela.

O resto do mundo tornou-se ruído de fundo.

Quando chegou a hora de cada um seguir para o seu liceu, não houve drama — apenas a promessa silenciosa de um reencontro. Combinámo-lo, como quem guarda um tesouro para mais tarde.

E eu fui.

Fui esperar por ela como quem cumpre um destino.

Quando a vi sair, novamente com aquele sorriso que me desarma, percebi que há dias que não se repetem, mas ficam. Sentámo-nos outra vez, lado a lado, no regresso. Conversámos mais, melhor, com menos medo. Ela perguntou pelas minhas férias. Falei do CRM, do meu voluntariado — e vi nos olhos dela uma curiosidade genuína, como se quisesse conhecer não só o que eu fazia, mas quem eu era.

Isso mexe com um rapaz. Mais do que devia.

Quis acompanhá-la até casa. Claro que quis. Mas há prudências que falam mais alto do que os impulsos. E, desta vez, fizemos caso delas. Cada um seguiu o seu caminho, com aquele acordo tácito de que ainda era cedo para ousar demais.

Despedimo-nos.

Um “até amanhã” simples.

Mas os olhos dela… aqueles olhos azuis, esses não disseram “até”. Disseram “fica”.

Voltei para casa com o coração cheio — e isso é uma forma de riqueza que não se declara a ninguém. A tarde passou sem história, como passam as coisas quando já não são o mais importante.

Porque a verdadeira história… já tinha acontecido.


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