A coragem que chegou atrasada — mas chegou
Quarta-feira, 17 de Novembro de 1976
Hoje foi o dia que tantas vezes vivi antes de o viver.
Saí de casa em corrida, como se o tempo fosse um adversário a vencer. Os meus pés mal tocavam o chão, mas o coração — esse — já lá estava, adiantado, à minha espera. Antes mesmo de dobrar a esquina, senti-o: aquele bater desordenado que não engana. E soube. Sem a ver, soube.
Ela estava lá.
Viu-me. Eu vi-a.
E, no entanto, entre nós abriu-se uma distância absurda — não mais do que alguns passos — que se transformou num abismo. Quis avançar, juro que quis. Mas o corpo, traiçoeiro, recusou obedecer. O sorriso perdeu-se a meio caminho. Ela olhou-me, intrigada, talvez à espera de um gesto que não veio. E assim seguimos: ela à frente, eu atrás, como duas linhas paralelas que sabem que nunca se cruzam… a menos que uma delas quebre.
O coração batia sem ritmo, quase aflito. Mas eu… eu estava parado dentro de mim.
No Bonfim, ela seguiu sem olhar para trás. E eu fiquei com o peso inteiro daquilo que não fiz. Tantas palavras ensaiadas, tantos cenários construídos — todos desfeitos por um instante de silêncio. Nesse momento, não fui mais do que um espectador da minha própria cobardia.
Ainda durante as aulas fui procurá-la. Vi-a. E mais uma vez, nada. Como se houvesse em mim um muro invisível, erguido sem que eu soubesse como derrubá-lo.
Mas o dia, teimoso, ainda não tinha dito a última palavra.
Esperei por ela na paragem. Quando apareceu, trazia no rosto uma sombra — ou talvez fosse apenas o reflexo da minha própria tristeza a projectar-se nela. Entrámos no trólei. A mesma distância. O mesmo silêncio pesado. O mesmo julgamento silencioso que eu fazia de mim próprio.
Em S. Pedro, eu saí à frente, mas adiante… parei.
Houve ali um instante — breve, quase imperceptível — em que tudo se decidiu. Não foi coragem bonita, dessas que se contam com orgulho. Foi uma coragem arrancada a ferros, quase contra a minha vontade. Mas foi.
Esperei que ela se aproximasse… e disse:
— Olá, Dila.
Duas palavras. Tão pouco… e, no entanto, tudo.
Ela parou, hesitou, como quem não tem a certeza do que ouviu, e depois olhou-me nos olhos.
— Olá, António.
A voz dela… não sei explicar. Foi como se tivesse aberto uma porta dentro de mim que eu julgava fechada. Tudo aquilo que eu guardara, todas as defesas, caíram num instante.
E então veio a pergunta, directa, sem rodeios:
— Porque me tens evitado?
Não tive como fugir. As palavras saíram frágeis, tremidas:
— Desculpa… pensei que não quisesses voltar a falar comigo…
Nem me deixou terminar.
— E porque é que eu não haveria de querer?
Tentei explicar-me, tropeçando nas memórias da última vez, mas ela foi clara:
— Eu disse-te que podíamos continuar amigos.
Ali estava a verdade, simples e nua. E eu, perdido nas minhas interpretações, tinha construído um labirinto onde não havia portas.
Engoli o orgulho. Ou talvez tenha sido o medo.
— Tens razão, Dila. Fui parvo… os meus medos… — hesitei — impediram-me de seguir o que devia.
Não disse “coração”. Faltou-me ainda esse pedaço de coragem.
Perguntei-lhe como ela estava, e respondeu-me com uma honestidade tranquila. Disse que tinha reprovado, que estava mais resguardada, quase em dívida consigo própria e com os pais. Havia ali uma sombra, sim — mas também uma vontade de recomeçar.
O tempo, esse velho apressado, interrompeu-nos.
— Tenho de ir — disse.
E eu, com medo que tudo voltasse a escapar-me por entre os dedos, arrisquei mais um passo:
— Amanhã… encontramo-nos na paragem?
Ela olhou-me séria. Houve um segundo que pareceu um século. Senti o chão fugir-me.
Mas depois… sorriu.
— Claro que sim.
Não foi um grande gesto. Não foi uma promessa eterna. Foi simples. E, por isso mesmo, foi tudo.
— Até amanhã — respondi, quase em sussurro.
Fiquei ali, preso à imagem dela a afastar-se, como quem guarda um instante num lugar onde o tempo não chega.
Voltei para casa com uma leveza estranha, quase irreal. Como se tivesse conquistado algo impossível — não o mundo inteiro, não a Lua… mas aquele pequeno espaço onde a esperança volta a respirar.
O resto do dia dissolveu-se em pensamentos. Ou melhor, em sonhos acordados. As horas arrastaram-se, pesadas, como se o tempo, ciumento, quisesse testar a minha paciência.
Porque agora… agora só existe amanhã.
E é curioso — passamos tanto tempo a fugir dos dias, e de repente há um que desejamos com toda a força.
Amanhã já não é apenas um dia.
É uma promessa.
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