O encontro adiado pelo destino
Terça-feira, 16 de Novembro de 1976
A noite veio como eu já suspeitava: inquieta, povoada de imagens que não pedem licença para entrar e muito menos para sair. Dormir foi apenas fechar os olhos — o resto foi um desfile desordenado daquilo que não controlo.
Levantei-me cansado, mas com uma decisão firme, quase teimosa. Havia em mim uma urgência — não dessas que se dizem, mas das que apertam por dentro. Tomei o pequeno-almoço à pressa, como quem não quer perder o instante certo, e desci a rua com a sensação de que o dia me devia alguma coisa.
Na paragem, o silêncio. E a ausência dela.
É curioso como um espaço cheio de gente pode ficar vazio por causa de uma única pessoa.
Durante a viagem, fui arquitecto de encontros que não aconteceram. Ensaiei palavras, pedi desculpas em silêncio, construí pontes frágeis feitas de intenção. Tudo parecia tão claro na minha cabeça — como se bastasse chegar perto dela e deixar o coração falar. Mas o mundo, às vezes, tem um humor próprio… e hoje decidiu não colaborar.
A manhã passou depressa, arrastando-me até ao fim das aulas com essa esperança teimosa a bater ainda, mais fraca, mas viva. Saí quase a correr, como se os meus passos pudessem apressar o destino. Fui até ao Bonfim com os olhos atentos, inquietos, à procura de um rosto que não apareceu.
E então veio aquele aperto. Não dramático, não ruidoso — apenas firme, como uma porta que se fecha devagar.
Aceitei, ou tentei aceitar, que há momentos que não esperam por nós. E que, quando os deixamos passar, talvez tenhamos de confiar que a vida — caprichosa como é — nos dará outra oportunidade. Ou não. (A vida tem este lado meio irónico, não avisa quando é teste ou quando é despedida.)
Voltei para casa mais pequeno do que saí.
À tarde, cumpri o ritual. O Centro, os livros, as páginas que se viram sem se lerem verdadeiramente. Uma tentativa de distrair a mente, como quem assobia no escuro para afastar o medo — ou a saudade, que às vezes é a mesma coisa com outro nome.
A noite caiu devagar, e com ela veio uma espécie de rendição tranquila. Nem derrota, nem vitória — apenas um intervalo.
Hoje não aconteceu.
Mas o futuro… esse ainda não foi escrito. E talvez seja isso que, apesar de tudo, me faz continuar a levantar amanhã.
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