O silêncio que perdeu o momento
Segunda-feira, 15 de Novembro de 1976
Hoje acordei com a leveza rara de quem, por instantes, faz as pazes consigo mesmo. Saí de casa com o espírito solto, como se o dia me tivesse aberto uma janela só para mim. Até o sol, a nascer por detrás da serra, parecia cúmplice desse sossego — um espectáculo simples, mas suficiente para me lembrar que nem tudo pesa.
A manhã decorreu sem sobressaltos, quase como se o mundo tivesse decidido não me contrariar. Num desses intervalos vazios entre aulas, vi-a. E ela viu-me. Ficámos presos naquele instante suspenso, dois olhares que se reconhecem mas não se atrevem a dar o passo seguinte. Depois, como sempre, a realidade interrompeu o que podia ter sido mais — a campainha tocou, e cada um regressou ao seu papel.
No fim das aulas, corri para a paragem com uma esperança tímida, dessas que não se confessam em voz alta. Ela não estava. Esperei. E, como quem recebe um prémio inesperado, vi-a chegar — tão perto que só deu por mim quando já me tinha ao lado. E eu… calado. Outra vez. Como se as palavras se escondessem de mim no momento em que mais preciso delas.
Entrámos no trólei. Ela sentou-se. Eu fiquei atrás. Não sei porquê — talvez por medo, talvez por hábito, talvez por essa estranha cobardia que se disfarça de prudência. Seguimos assim até à nossa paragem. Saí primeiro, como se fugir fosse uma forma de me proteger, mas foi ela quem me ultrapassou, desaparecendo na curva como um pensamento que não se consegue agarrar.
À tarde refugiei-me no CRM, como quem tenta organizar o caos com livros e apontamentos. Estudei, sim, mas a verdade é que havia outra coisa a ocupar-me o pensamento. Ao regressar a casa, julguei vê-la num vulto que passou por mim. Talvez não fosse ela. Ou talvez fosse apenas a minha cabeça a insistir no que não aconteceu.
E depois, como uma pequena facada limpa, veio a revelação: a Celeste contou-me que tinha falado com ela. E que ela estava desagradada comigo. Que esperava que eu lhe tivesse falasse.
Tão simples. Tão claro. E eu falhei.
Às vezes não é o mundo que nos trava — somos nós, com as nossas hesitações bem polidas, a perder o essencial por medo de errar. Hoje não faltei por falta de oportunidade. Faltei por falta de coragem.
Mas há dias que não acabam quando o sol se põe. Continuam dentro de nós, a trabalhar em silêncio.
Amanhã… amanhã não pode ser igual.
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