O peso morto das horas

Domingo, 14 de Novembro de 1976

Hoje foi um daqueles dias em que o mundo pareceu encolher até ficar vazio. Como se todas as pessoas tivessem desaparecido e eu tivesse ficado esquecido num canto do tempo.

Contei minutos. Contei horas. E o tempo, teimoso como uma mula velha, recusava-se a avançar.

Sair de casa tornou-se um esforço estranho, quase um fardo. Se dependesse apenas de mim talvez nem tivesse atravessado a porta. Mas o Manel, com aquela naturalidade que ele tem para as coisas simples, acabou por me puxar para a rua. Sem grandes discursos, sem dramatismos — apenas caminhando, como quem sabe que às vezes o melhor remédio é pôr os pés em movimento.

Encaminhou-me para o CRM. Aos poucos, muito devagar, comecei a sentir qualquer coisa parecida com regresso à vida. Não foi um despertar repentino — foi mais como quando a neblina da manhã se levanta aos poucos sobre um campo.

Mas a minha inércia ainda estava ali. Pesada.

Não consegui ser a pessoa que normalmente sou quando estou no Centro. Fiquei toda a manhã na biblioteca, sentado diante de um livro que fingia ler. O Manel, esse, entretinha-se a jogar ping-pong, a rir com os outros, a fazer barulho com as bolas a bater na mesa.

O meu ping-pong era outro.

Na minha cabeça as ideias batiam de um lado para o outro. Às vezes tentava concentrar-me nas palavras do livro, mas bastava um instante e o pensamento escapava-se para outros lugares — lugares de onde, na verdade, eu nunca tinha saído.

A passagem do tempo foi lenta, quase dolorosa.

Mas eu próprio também estava estranho: dolente, sonolento, como se alguém tivesse rodado o botão do mundo para um volume muito baixo. Uma espécie de anestesia interior.

E assim, qualquer dor que existisse — pequena ou grande — já não tinha força suficiente para me arrancar do lugar onde eu estava.

Fiquei ali.

Quieto.

Sozinho.

Apenas e só.

Há dias assim. Dias em que a alma parece sentar-se num banco vazio e ficar a olhar para o horizonte sem grande vontade de se levantar. Mas, pensando bem, até esses dias têm o seu papel. São como o Inverno: frios, silenciosos… e ainda assim necessários para que qualquer coisa, mais tarde, volte a florescer.


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