Entre a coragem e o gelo

Sábado, 13 de Novembro de 1976

Definitivamente começo a achar que não consigo crescer. Há qualquer coisa em mim que emperra sempre no momento exacto em que deveria avançar. Depois, quando tudo passa, fico a censurar-me como um juiz severo que já conhece de antemão a sentença.

Hoje de manhã precisei que o Manel me arrancasse da cama. Literalmente. Saímos de casa a correr para apanhar o trólei no sítio do costume. Chegámos mesmo em cima da hora. O trólei acabava de parar e nós entrámos de rompante, esbaforidos, ainda a recuperar o fôlego da corrida.

E foi nesse exacto momento que dei de caras com a Dila.

Ela estava ali, diante de mim, a olhar-me.

Não percebi aquele olhar. Não sei se estava vazio, indiferente… ou se havia nele uma sombra de censura. Não tive tempo para decifrar nada. Quase imediatamente ela virou-se e subiu para o piso de cima do trólei.

E eu… congelei.

Fiquei ali cravado no chão como se os pés tivessem criado raízes de repente. Não consegui subir atrás dela. Não consegui dar um único passo.

O resto da viagem foi um tormento silencioso. O Manel, sem perceber o que se passava dentro de mim, insistia para que eu subisse. “Anda lá acima”, dizia ele várias vezes, meio divertido, meio impaciente. Mas eu não conseguia explicar-lhe. Nem a ele… nem a mim próprio.

Porque razão me comporto assim? Porque é que, quando ela está ali, tão perto, tudo em mim se transforma em gelo?

Quando chegámos ao Bonfim, um magote de alunos desatou logo a correr em direcção aos liceus, como acontece sempre. Eu fiquei para trás, arrastando os passos, ainda preso naquele momento que já tinha passado.

Não voltei a vê-la.

Talvez tenha saído antes. Talvez tenha passado por mim sem que eu desse conta. Ou talvez simplesmente eu não a tenha visto partir.

A verdade — seja ela qual for — voltou a ficar pendurada dentro de mim como um peso.

E a pergunta também: porquê?

Porque fiquei outra vez imóvel diante dela? Porque deixei escapar, mais uma vez, a oportunidade de mostrar o quanto ela significa para mim?

Perdi aquele momento. E com ele perdi também o resto do dia.

A manhã e a tarde passaram por mim como um temporal atravessa o céu. Eu andava por ali, entre as aulas e os corredores, mas era como se fosse apenas uma nuvem leve no meio da tempestade — presente e ausente ao mesmo tempo, sem conseguir agarrar coisa nenhuma.

Às vezes penso que crescer talvez seja isto: aprender a não ficar parado quando a vida passa mesmo diante dos nossos olhos.

Infelizmente, hoje ainda não aprendi.


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