O eco de um instante

Sexta-feira, 12 de Novembro de 1976

É curioso como certos momentos, tão breves que quase cabem dentro de um suspiro, conseguem deixar marcas mais profundas do que dias inteiros. Ontem, ao ver a Dila no trólei, senti isso com uma clareza estranha. Foi como se o mundo tivesse parado um segundo mais do que devia. Fiquei tão atordoado que não soube o que fazer com aquele encontro inesperado. Quando finalmente despertei daquele pequeno torpor, ela já tinha desaparecido — como se tivesse sido apenas um fragmento de sonho que se dissolveu no ar.

Hoje saí de casa cedo para apanhar o trólei, mas a minha cabeça não ia comigo. Ficou algures entre a memória de ontem e a expectativa de hoje. Na paragem nada aconteceu. Olhei as pessoas uma a uma, sem grande convicção, como quem procura algo que talvez nem esteja ali. Ela não estava.

No trólei repeti o mesmo gesto silencioso: olhei em volta várias vezes, tentando descobrir se por acaso estaria sentada noutro lugar, escondida entre os passageiros da manhã. Mas não. Nem sombra dela. Estranho como ontem senti um pressentimento quase físico da sua presença e hoje não houve sequer um vislumbre.

As aulas decorreram normalmente. Procurei manter-me atento, disciplinar a mente, como quem puxa as rédeas de um cavalo inquieto. Fiz por estar presente, sem alimentar expectativas desnecessárias.

Quando as aulas terminaram, caminhei devagar em direcção ao Bonfim. Dei por mim a observar cada rosto que passava, cada movimento à minha volta, como se a cidade inteira pudesse de repente revelar-me a sua presença. Nada. Na paragem, apenas o mesmo vazio discreto que tinha encontrado de manhã.

De tarde fui para o Centro — o meu habitual refúgio de trabalho, aquilo a que já começo a chamar o meu pequeno centro de estudo. A ocupação fez-me bem. Passei grande parte da tarde a dactilografar os resumos das aulas da manhã. O trabalho manual da máquina de escrever ajuda a organizar os pensamentos. Cada tecla é como um pequeno martelo que põe ordem no caos da cabeça.

Mais tarde fui para a Academia. O esforço físico tem esse dom simples e honesto: gasta as energias que a mente às vezes acumula sem necessidade. Depois de algum tempo de treino, o corpo fica cansado, mas a cabeça fica leve.

Agora estou aqui no quarto, a rabiscar estas linhas no diário. Não aconteceu nada de extraordinário hoje — apenas o silêncio de uma ausência que ontem parecia cheia de significado.

Talvez amanhã o dia traga algo diferente.

Ou talvez não.

Mas a vida, tal como o trólei que sigo todos os dias, continua sempre a avançar pelos mesmos caminhos, à espera de que em alguma paragem inesperada alguém volte a entrar.


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