O instante suspenso entre dois olhares
Quinta-feira, 11 de Novembro de 1976
Hoje saí de casa calmo e descontraído para o liceu. Fiz questão de manter o espírito sereno, como quem segura nas próprias rédeas para não deixar que a ansiedade dispare. Deixei que os meus passos me levassem, naturalmente, até à paragem de trólei do costume.
Estava lá um pequeno grupo de pessoas. Observei-as sem grande interesse. Nenhuma me chamou a atenção. Encolhi os ombros para dentro de mim e segui viagem para o Porto.
O liceu, de portas abertas, ia absorvendo os alunos em magotes, como um grande pulmão que respira juventude e ruído. Entrei nesse fluxo sem resistência. As aulas decorreram sem sobressaltos. Fluíram como um rio tranquilo, e eu fui com elas, sem pressa, sem grandes pensamentos.
Quando terminaram, dirigi-me à paragem. Olhei em redor, discretamente, mas nada encontrei. Nada daquilo que os meus olhos, apesar de tudo, continuavam a procurar. Ainda assim ficou em mim uma sensação estranha, uma espécie de pressentimento que não sabia explicar.
Segui no trólei até S. Pedro com essa mesma sensação a acompanhar-me.
Quando me preparava para sair senti, de repente, um olhar pousar em mim. Não foi um gesto, não foi um som — foi apenas aquela certeza silenciosa de que alguém nos está a ver. Virei-me.
E por um instante o coração pareceu parar.
Atrás de mim estava ela. A Dila.
Olhava-me atentamente, como se aguardasse uma reacção da minha parte. Durante alguns segundos fiquei sem saber o que fazer, suspenso entre a surpresa e a alegria. Mas a multidão que queria sair do trólei não teve paciência para os meus pensamentos e empurrou-me para fora.
Quando voltei a olhar, ela não saiu.
Todo o caminho até casa senti uma felicidade imensa a crescer dentro de mim. A imagem dela repetia-se no meu pensamento como uma fotografia luminosa. Estava linda — disso não tenho dúvida. Parecia mais madura, mais serena. Tinha um leve tom rosado no rosto… talvez tivesse corado ao ver-me.
Ou talvez fosse apenas a minha imaginação a pintar o momento com cores mais vivas.
Não caminhei até casa. A verdade é que levitei.
De tarde fui para o Centro. Mas não fui sozinho. Levei-a comigo, em silêncio, como se a sua presença se tivesse instalado dentro de mim. O tempo passou sem que eu desse conta. Fiz tudo o que tinha para fazer com uma leveza rara, quase distraída.
Depois regressei a casa ainda envolvido pela imagem daquela manhã, que não me abandonara em momento algum.
A noite caiu devagar, quase sem se fazer notar.
E eu deixei-me levar por ela, como quem guarda dentro de si um pequeno segredo luminoso.
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