Quando a esperança bate à porta
Quarta-feira, 10 de Novembro de 1976
Hoje decidi simplesmente levar o dia adiante. Não pensar demasiado. Não puxar pelos fios invisíveis que às vezes embaraçam a cabeça. Deixar o dia acontecer.
As aulas seguiram o seu ritmo habitual e eu procurei acompanhar esse compasso tranquilo. Estive presente, cumpri o que me era pedido, avancei sem grandes desvios. E a manhã foi passando assim, quase sem ruído.
Quando acabaram as aulas, o sol espreitou por entre as nuvens, tímido, como quem pede licença para aparecer. Fez-me pensar que mesmo nos dias mais sombrios há sempre um raio de luz disposto a mostrar, discretamente, um caminho possível.
De tarde fui para o CRM. Ali, como tantas vezes acontece, reencontrei algum equilíbrio. Estudei, reuni com os membros do grupo e conversámos sobre novos projectos. Tomámos decisões: criar um pequeno jornal e fazer autocolantes para ajudar a financiar as actividades do grupo. A conversa foi viva, as ideias surgiram umas atrás das outras, e tudo acabou por correr muito bem. Por momentos senti que as coisas podiam realmente avançar.
Quando voltei para casa, a minha irmã mais nova — novamente ela, sempre mensageira inesperada — veio ter comigo com ar de quem traz novidades. Disse-me que estivera com a Dila. E contou-me que ela tinha começado hoje as aulas de manhã… e que perguntara por mim mais uma vez.
Fiquei ali parado por instantes.
Seria isto que eu andava a antecipar nestes últimos dias? Talvez. Talvez não. A verdade é que não fiquei a pensar tanto na notícia em si, mas antes no mistério de ela surgir, assim, à minha porta através das palavras da minha irmã. Terá sentido a minha falta tanto quanto eu senti a dela? Ou haverá outra razão qualquer que eu ainda não consigo perceber?
Não tenho resposta para dar. Ainda.
Entretanto apareceu o Manel. Finalmente contei-lhe tudo. O entusiasmo dele foi imediato e genuíno. Ficou tão excitado com a história que quis logo ir à escola do Passal ver se encontrava a Ana Maria. Tive de o travar. Disse-lhe para ter calma, para esperar, para não querer apressar aquilo que talvez precise do seu próprio tempo.
Enquanto falava com ele dei por mim a pensar que soava quase como um adulto — coisa que, na verdade, ainda estou longe de ser.
A noite acabou por chegar com a sua quietude habitual. E com ela veio também um certo sossego, como se a escuridão tivesse decidido acalmar a ansiedade que começava novamente a querer crescer dentro de mim.
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