O peso das nuvens interiores

Terça-feira, 9 de Novembro de 1976

O dia acordou cinzento e, inexplicavelmente, eu também. Dormi bem, creio eu. Pelo menos o corpo descansou. A mente, essa, parecia ter acordado noutro lugar qualquer. Não percebia bem o motivo daquele humor pesado que me acompanhava desde cedo. Mais tarde acabaria por perceber.

Fui para as aulas como quem cumpre um trajecto já conhecido. Saltei a paragem de S. Pedro e a viagem até ao Bonfim passou por mim sem que eu desse conta de nada. As ruas, as pessoas, os ruídos da cidade — tudo aconteceu à minha volta, mas como se eu estivesse atrás de um vidro espesso.

Nas aulas esforcei-me por estar presente. Fiz o possível para acompanhar o que era dito, para manter os olhos atentos e a cabeça desperta. Mas não conseguia raciocinar nem pensar com clareza. A minha mente estava tão cinzenta como o céu lá fora.

Quando as aulas terminaram voltei para casa. Trouxe o corpo comigo, mas deixei algures a cabeça pelo caminho. Não a sentia. O que sentia era outra coisa… frustração.

Sim, era isso.

Percebi então o motivo daquele peso que me acompanhava desde manhã. Na semana passada construí dentro de mim tantas expectativas que me esqueci de uma coisa simples: a vida não acontece ao ritmo que eu quero, acontece ao ritmo dela. E não há muito que se possa fazer contra isso.

É estranho descobrir respostas para perguntas que, afinal, nunca cheguei a formular.

Talvez esteja mesmo a mudar. Não sei ainda em que direcção, mas sinto que algo dentro de mim se está a reorganizar, como móveis numa casa antiga.

Só espero que seja para melhor.

O dia de hoje não foi boa companhia. Ou talvez tenha sido eu que não soube ser boa companhia para mim mesmo. Há dias assim — caminham ao nosso lado como uma sombra teimosa.

Talvez amanhã seja diferente.
Talvez amanhã seja melhor.


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