Entre o pressentimento e o silêncio

Segunda-feira, 8 de Novembro de 1976

Começa um novo dia e talvez eu já não volte a ser a mesma pessoa. O futuro avizinha-se. Não sei qual será, mas creio que sei qual desejo que seja.

Fui para o liceu sem precipitação nem correria. O meu coração seguiu o mesmo compasso, tranquilo, como se tivesse decidido caminhar ao ritmo dos passos e não das inquietações. Durante as aulas procurei estar presente de corpo e alma. Obriguei-me a ficar ali, dentro daqueles muros, sem permitir que o pensamento vagueasse para outros caminhos onde, inevitavelmente, ela apareceria.

Quando as aulas terminaram surgiu um nervoso miudinho, daqueles que começam quase invisíveis e depois se instalam no peito como um pequeno tambor. Consegui controlá-lo. Dirigi-me para a paragem do trólei no Bonfim. Não esperava encontrar ninguém. Pelo menos era isso que dizia a mim mesmo.

Mas o coração não se deixou enganar. Acelerou como se tivesse pressa de se denunciar.

Esperei o que havia para esperar e depois segui viagem. Voltei para casa sem expectativas — assim estava livre de qualquer desilusão que pudesse surgir. Quando cheguei à paragem da Covilhã confirmei aquilo que já suspeitava: como nada esperava, nada aconteceu.

À tarde juntei-me a uns colegas e fomos até à Serra de Santa Justa. Sabia que por lá existiam algumas grutas e isso serviu de pretexto para caminharmos pela serra. O esforço da subida e o ar fresco da montanha ajudaram-me a afastar a mente para longe de outras cavernas, mais escuras, que ainda habitavam dentro de mim.

A aproximação da noite acabou por nos chamar de volta. As sombras alongaram-se pelos caminhos e entendemos que a aventura do dia tinha chegado ao fim.

Agora estou aqui no quarto, com o diário aberto e a esferográfica na mão. Escrevo estas linhas com uma serenidade estranha, como quem fecha uma porta devagar para não acordar o silêncio.

Termino este dia com uma esperança simples: que o dia de amanhã traga um sol que não se apague tão depressa.


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