Entre o passo dado e o passo suspenso

Domingo, 7 de Novembro de 1976

Os últimos dias e noites têm tornado a presença da Dila uma quase realidade na minha vida. Como se ela caminhasse ao meu lado mesmo quando não está. A rotina que antes me guiava como um carril seguro desapareceu. A minha vida deu uma volta larga e inesperada. Agora hesito até nos passos mais simples, como quem pisa um chão que deixou de reconhecer.

Apesar de me obrigar a seguir em frente — porque o caminho, goste-se ou não, é sempre em frente — dou por mim muitas vezes parado por dentro, indeciso sobre o que fazer a seguir. Foi assim que começou este dia: com a cabeça cheia de perguntas e os pés sem grande vontade de responder.

Fui para o Centro contrariando a vontade de seguir outro caminho, um caminho que conheço demasiado bem e que tantas vezes percorri nos últimos tempos. Desta vez venci essa tentação… ou talvez tenha sido ela que me venceu a mim. Ainda não sei.

No Centro cumpri apenas o ritual da presença. Estava lá, mas vazio. Como uma casa onde as janelas estão abertas mas ninguém vive dentro. As minhas pernas e a minha cabeça pareciam não falar a mesma língua. Atrapalhavam-se mutuamente, levando-me a vaguear de um lado para o outro sem rumo certo, até que decidi regressar a casa, ao único lugar onde o silêncio me parece menos pesado.

A tarde trouxe uma surpresa. Apareceu o Manel — o ausente. Finalmente deu sinais de vida. Talvez tenha sido libertado temporariamente dos castigos parentais, quem sabe. Não perguntei. Às vezes a amizade vive melhor sem interrogatórios.

Apesar da nossa proximidade, escondi-lhe tudo o que tem acontecido com a Dila. Não quis criar-lhe expectativas sobre um possível reatamento entre nós. Conheço demasiado bem o Manel… e conheço também a curiosidade que ele tem pela irmã dela. Certas portas, quando se abrem, deixam entrar ventos difíceis de controlar.

Ainda assim, foi bom tê-lo por perto. As nossas velhas macaquices voltaram como se o tempo não tivesse passado. Rimos, inventámos disparates, ocupámos a tarde com pequenas parvoíces que fazem a cabeça descansar.

O dia, que pela manhã prometia ser longo e arrastado, acabou por encolher. Quando dei por isso, já a noite estava à porta.

E com ela regressaram os pensamentos. Aqueles que nunca pedem licença.

Fiquei a pensar, em silêncio, como será o amanhã. Porque às vezes o amanhã parece uma porta fechada… e outras vezes apenas uma porta que ainda não tive coragem de abrir.


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