A bonança que me pousou no coração
Sábado, 6 de Novembro de 1976
Hoje foi um dia ameno, desses que chegam sem fazer barulho e se instalam devagar dentro de nós.
Acordei depois de uma noite de anjos. Uma noite santa, limpa de insónias e de sonhos inquietos. Dormi profundamente, como se alguém tivesse finalmente fechado a porta aos pensamentos que nos últimos dias insistiam em vaguear pelo meu quarto.
Levantei-me com a cabeça leve. Sem peso. Sem aquele aperto invisível que às vezes carregamos sem saber bem porquê.
A manhã também correu assim, leve.
No liceu dois professores faltaram e, em vez de ficar por ali no alvoroço habitual, saí para o exterior. Não foi fuga, nem refúgio. Foi apenas uma escolha tranquila.
Fui até ao jardim do liceu.
Havia ali uma quietude rara. Nada de confusão, nada de vozes a cruzarem-se, nada daquelas presenças que às vezes se tornam intrusivas sem sequer darem por isso.
Sentei-me e deixei-me estar.
Em paz comigo mesmo.
Lembrei-me então de uma frase que ouvi algures, não sei já onde: depois da tempestade vem a bonança. E naquele momento percebi que era exactamente isso que estava a sentir.
A bonança.
Não aquela alegria ruidosa que chega de rompante, mas antes uma serenidade calma, como um lago quando o vento finalmente se cala.
E, no fundo, creio que sabia porquê.
A tarde passou sem sobressaltos. Foi apenas a tarde — nada mais do que isso. Os minutos a deslizarem no seu ritmo próprio, sem pressas nem hesitações. Um após outro foram-se transformando em horas, e as horas levaram-me consigo até ao fim do dia.
Depois a noite apareceu.
Primeiro lá longe, no horizonte por cima da serra. Uma sombra suave que foi avançando devagar até cobrir o vale inteiro com o seu manto escuro.
Agora estou no recolhimento do meu quarto.
A esferográfica desliza no papel enquanto vou pintando com letras este dia simples. Um dia que, visto de fora, talvez não tenha tido nada de especial.
Mas que, para mim, foi maravilhoso.
Porque me trouxe aquilo que há muito não sentia com tanta clareza: paz de espírito.
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