Quando o destino bate duas vezes

Sexta-feira, 5 de Novembro de 1976

O dia de ontem continuava ainda a ecoar dentro de mim depois de uma noite mal dormida. Não foi um sono pesado, mas também não foi inquieto como o anterior. Digamos que os pensamentos se sentaram um pouco mais longe, mas não saíram da sala.

A manhã nasceu cinzenta.

Não estava frio. Pelo contrário, havia naquele ar uma espécie de aconchego, como se o dia convidasse ao recolhimento. Um daqueles dias em que apetece ficar em casa, enrolado numa manta, com um chá quente entre as mãos, a olhar a chuva — mesmo que ela não caia.

Mas a vida não se compadece com esses convites.

Há rotinas que não perguntam se estamos preparados. Simplesmente começam a rolar encosta abaixo e nós vamos atrás delas.

Levantei-me. Fui para o liceu. Cumpri.

Dormira melhor, é verdade, mas os pensamentos — agora um pouco mais pacificados — continuam cá dentro. Sentados, à espera, como se tivessem ainda alguma intenção por cumprir. Qual, não sei.

Mas não desisti de seguir adiante.

A tarde chegou com o mesmo tom do dia. Nem claro, nem escuro. Apenas suspenso.

Fui para o Centro. A mesma distância, o mesmo caminho, os mesmos gestos de sempre. Estudo, leitura, alguma escrita. Tudo decorreu ao ritmo lento deste dia cinzento.

Quando regressei a casa pensei que o dia terminaria como tantos outros.

Enganei-me.

Mal entrei, a minha irmã disse-me que a Dila voltara a falar com ela.

Novo trambulhão.

Desta vez, porém, algo era diferente. Segundo a minha irmã, a Dila deixou escapar que gostaria de reatar o nosso relacionamento.

Por um momento o tempo parou.

Ou talvez tenha sido eu que parei dentro do tempo.

Perguntei à minha irmã várias vezes se tinha percebido bem. Pedi-lhe que repetisse tudo exactamente como fora dito. Palavra por palavra, se fosse possível.

Ela tentou reproduzir o melhor que conseguiu:

Já não vejo o teu irmão há muito tempo. Ele está mesmo bem? Eu agora tenho aulas de tarde e é por isso que não o tenho visto, já que ele tem aulas de manhã. Sabes o horário dele? Gostava de me encontrar com ele…

Foi isto.

Nada mais. Nada menos.

Curiosamente, desta vez não fiquei empolgado. O coração não disparou como tantas vezes disparou no passado. Não houve vertigem, nem aquela pressa de acreditar em tudo de uma só vez.

Mas algo ficou.

Algo sereno.

Senti-me bem. Estranhamente bem. Como se uma peça que andava solta dentro de mim tivesse finalmente encontrado o seu lugar.

Talvez, lá no fundo, eu estivesse à espera deste desfecho.

Será?

Agora surge a pergunta que nenhum pensamento consegue responder: como vai ser daqui para a frente?

Desta vez vou fazer diferente.

Vou ser paciente. Vou esperar. Não quero repetir os erros do passado. Não quero precipitar-me, nem estragar algo que, na verdade, ainda nem começou.

Há coisas que, quando são verdadeiras, sabem encontrar o seu próprio tempo.

E talvez este seja, finalmente, o tempo certo.


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