Um eco que não se cala
Quinta-feira, 4 de Novembro de 1976
O dia de ontem continua a ressoar dentro da minha cabeça. Trouxe-o comigo para a noite e a noite não soube o que fazer com ele. Dormi mal. Acordei várias vezes, como se os pensamentos tivessem decidido fazer vigília dentro de mim.
Mesmo assim, quando o dia começou, parecia prometer algo diferente.
Fui para o liceu como sempre. Mas a manhã acabou por abrir uma pequena brecha na rotina: dois professores faltaram. O burburinho nos corredores aumentou logo, aquela alegria barulhenta dos colegas quando sentem que ganharam tempo livre.
Eu fiz o contrário.
Aproveitei para me escapulir sozinho. Afastei-me daquele ruído e da inconveniência das conversas vazias. Precisava de espaço. E, às vezes, o único lugar onde encontro esse espaço são as ruas da cidade.
Andei sem destino. Caminhei por caminhar. Como se cada passo pudesse acalmar o turbilhão que trago cá dentro.
Ou talvez não seja um turbilhão de pensamentos. Talvez seja de sentimentos.
Neste momento já nem sei bem distinguir uma coisa da outra.
As palavras da Dila continuam a bater dentro de mim. Aquela simples notícia trazida pela minha irmã deixou-me um sabor amargo. Não pelas perguntas dela — pelo contrário. Mas porque não fui eu a respondê-las.
Gostaria de ter estado ali.
Gostaria de lhe ter dito eu próprio que estou bem… ou pelo menos ter tentado parecer que estou.
Enquanto caminhava senti aquela dor estranha no estômago e um nó apertado na garganta. O corpo às vezes fala mais alto do que a cabeça. E o que ele me dizia era simples e directo: eu não estou bem.
À tarde fui para o Centro.
Precisava de ocupar a mente. Estudo, alguma escrita, um pouco de leitura. Tudo serve quando o objectivo é desviar o olhar do nosso próprio mundo interior.
Mas, mesmo assim, de vez em quando, a imagem dela voltava. Como uma maré teimosa.
Hoje dei por mim a desejar a chegada da noite mais cedo do que é costume.
Não por cansaço.
Mas porque a noite tem esse poder de desligar o mundo. Apagar as ruas, silenciar as vozes, fechar as portas.
E talvez, por algumas horas, também consiga silenciar aquilo que continua a ecoar dentro de mim.
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