Perguntas que voltam do passado

Quarta-feira, 3 de Novembro de 1976

Definitivamente os dias não são todos iguais. Todos nascem da mesma forma — uma manhã que começa, horas que se alinham umas atrás das outras e, inevitavelmente, uma noite que chega. Têm princípio, meio e fim. Mas é no que acontece nesse meio que mora a verdadeira diferença. É aí, nesse espaço entre o nascer e o apagar do dia, que tudo pode equilibrar-se… ou perder o equilíbrio.

Hoje começou como tantos outros.

Aulas de manhã. Cadernos abertos, professores a falar, a minha atenção a tentar manter-se firme nas matérias. Depois o regresso a casa, como sempre, com aquele cansaço tranquilo de quem cumpriu a sua parte.

A tarde também parecia seguir o mesmo guião habitual. Fui para o Centro. Estudo, alguma escrita, leitura. A rotina tem essa virtude silenciosa de nos manter ocupados, como se cada tarefa fosse uma pequena pedra que ajuda a construir um muro contra os pensamentos.

Regressei a casa ao fim da tarde.

Foi aí que o dia mudou.

Mal entrei, a minha irmã mais nova disse-me, quase como quem conta uma coisa sem grande importância, que estivera com a Dila em frente da nossa casa.

Fiquei mudo.

Não soube o que dizer. Nem sequer soube o que pensar. Foi como se, por um instante, todas as palavras se tivessem escondido dentro de mim.

Percebendo o meu silêncio, ela continuou.

Disse-me que a Dila perguntara por mim. Quis saber se eu estava bem. Se ainda continuava a ter aulas no Alexandre Herculano. Se o meu horário no liceu era de manhã ou de tarde.

Só então despertei daquele primeiro choque.

Perguntei-lhe, quase com receio da resposta, se tinha respondido a todas as perguntas.

Ela disse que sim.

Tentei saber mais. Onde estava a Dila? Como falara? Se parecera apressada ou tranquila. Se dissera mais alguma coisa.

Mas a minha irmã não soube acrescentar grande coisa. Para ela fora apenas um encontro casual na rua, duas ou três perguntas, nada mais.

Agora estou aqui, sozinho no meu quarto.

Tenho na mão a fotografia dela — aquela mesma que tantas vezes olho como quem procura num retrato respostas que o tempo nunca dá.

E pergunto-me qual terá sido a intenção dela.

Será que quer voltar a reatar comigo?
Terá sido apenas curiosidade?
Ou haverá outra razão que me escapa?

Não compreendo.

Sinto-me zonzo, como se alguém tivesse aberto de repente uma porta que eu julgava definitivamente fechada.

E agora os pensamentos andam às voltas dentro da minha cabeça… e já não consigo raciocinar com clareza.


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