O vapor da meia-noite
Terça-feira, 2 de Novembro de 1976
Sentei-me agora na pequena secretária do meu quarto. Acendi o candeeiro — aquela luz amarela que parece sempre um pouco cansada — e abri o diário para escrever sobre os acontecimentos deste dia. Olho para a página em branco e, sinceramente, não sei muito bem por onde começar.
Ligo o rádio na minha emissora preferida. Dentro de momentos começa o meu programa de eleição: Vapor da Meia-Noite.
E que tenho eu para dizer sobre o dia de hoje?
De manhã, aulas.
De tarde, tomei conta da minha sobrinha.
Ao fim do dia, fui para a Academia.
Ponto final.
Assim, frio e sem enfeites, fica resumido o meu dia. Há dias que parecem não pedir mais palavras. São como pedras lisas no fundo de um rio: estão lá, existem, mas não fazem ondas.
Entretanto começa o programa.
Só o genérico de entrada já tem esse estranho poder de me desligar do presente. Fecho os olhos e deixo a imaginação fazer o resto.
Vejo um navio de passageiros parado junto ao cais. É noite cerrada. Há nevoeiro a escorrer lentamente sobre a água. Ao longe ouve-se a buzina de nevoeiro de outro navio — talvez a anunciar a sua chegada, talvez apenas a avisar que também ele anda perdido naquele mar de bruma.
O mar está calmo.
Ouve-se o marulhar das ondas a tocar a costa, sempre no mesmo compasso, como se o mar tivesse todo o tempo do mundo. Não há pressa em lado nenhum.
Imagino as pessoas dentro do navio a arrumarem as suas malas, a fechar os últimos fechos, a despedirem-se em silêncio da terra firme antes de partirem para lugares distantes — talvez quentes, talvez exóticos, talvez apenas diferentes.
No cais não há vivalma. Apenas a noite, um pouco de frio e aquele silêncio que só existe junto ao mar.
A música começa devagar.
O pivot, com aquela voz calma que parece vir de muito longe, convida os ouvintes a acompanhá-lo nas próximas duas horas numa viagem através do tempo e da música.
E eu deixo-me ir.
Esta música embala-me. Anestesia-me.
Fico num estado quase hipnótico, como se também eu estivesse naquele navio, à espera de partir para algum lado onde os pensamentos pesem menos.
Pouso a esferográfica.
Baixo o som do rádio até a música ficar quase imperceptível.
E fecho o diário.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »