Entre a preguiça da manhã e as tempestades dos homens
Segunda-feira, 1 de Novembro de 1976
Novembro começou com um feriado nacional. O dia abriu com uma pequena dádiva: acordei mais tarde. Fiquei algum tempo naquela morrinha agradável onde não se está verdadeiramente a dormir nem completamente acordado. Um território suave entre dois mundos. Preguiçar ali sabe bem, como se o tempo nos desse uma pequena licença.
Levantar-me não custou. Pelo contrário. O dia parecia prometer descontração, talvez até algum lazer tranquilo. Saí de casa com bom humor e fui para o CRM, convencido de que teria ali algumas horas sossegadas.
Mas a boa disposição terminou à porta.
Logo que cheguei percebi que o ambiente estava pesado. Vários responsáveis do Centro estavam reunidos e chamaram-me. Queriam falar comigo. O motivo era claro: estavam incomodados com as insinuações que alguns membros do nosso grupo tinham feito sobre quem poderia estar por detrás do vandalismo na nossa sala.
Ouvi-os com calma.
Procurei pôr água na fervura. Não levantei a voz, não alimentei a discussão. Disse o necessário para que a conversa não se transformasse numa guerra inútil. No fundo, dentro de mim, eu sabia perfeitamente que alguns daqueles responsáveis tinham estado ligados à destruição das nossas maquetes. Mas há verdades que, quando ditas no momento errado, apenas servem para incendiar ainda mais as coisas.
Preferi conduzir o barco devagar.
E pareceu-me que consegui levá-lo a bom porto. Quando me vim embora os ânimos estavam mais baixos, as vozes já não tinham aquele tom de tempestade.
Mesmo assim, não deixei de pensar no assunto.
O que aconteceu na nossa sala foi, para mim, um acto de vandalismo infantil. E o mais estranho de tudo é que não foram crianças a fazê-lo. Foram adultos. Ou, pelo menos, pessoas que pela idade já deveriam saber comportar-se como tal.
Enfim.
Há batalhas que não valem o desgaste da alma.
Decidi não carregar esse peso comigo.
A vida é curta demais para gastar energia com gente que ainda não aprendeu a crescer.
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