O dia em que nada começou e tudo se mexeu por dentro
Segunda-feira, 3 de Janeiro de 1977
Levantei-me cedo, com aquela pressa sem motivo que às vezes o corpo tem antes da cabeça acordar. O ar ainda vinha frio e limpo, como se o ano estivesse a aprender a respirar. Fui para o liceu sem saber se havia aulas, e talvez já soubesse a resposta, mas precisava de confirmar com os meus próprios passos.
Cheguei. Portões fechados. Silêncio. Nem vozes, nem risos, nem o barulho habitual de cadeiras arrastadas. Só aquele vazio que parece maior quando se espera outra coisa. Fiquei ali um instante, parado, como quem chega atrasado a um sítio que afinal nunca abriu. Depois virei costas.
Voltei a casa, tomei o pequeno-almoço com mais calma do que o costume. O pão sabia ao mesmo, mas o tempo não. Havia qualquer coisa suspensa no ar, como um dia que ainda não decidiu o que quer ser.
Fui para o centro. No DIFI, a manhã passou sem se dar por ela. Pessoas a entrar, a sair, conversas cruzadas, papéis que vão mudando de mãos como pequenas promessas escritas. Fiquei até perto da uma. Não fiz nada de extraordinário, mas também não estive parado. Às vezes é assim, um movimento contínuo que não leva a lado nenhum visível.
Almocei em casa e voltei. À tarde, tudo ganhou outro peso. Fiquei com um colega a ajudar a assistente social. Ela falava com as pessoas, ouvia histórias que vinham já gastas de tanto serem repetidas, e nós dávamos-lhes forma, cartas. Pedidos. Explicações. Apelos.
Escrever por outros é uma coisa estranha. A mão obedece, mas não é a nossa vida que está ali. E, no entanto, há sempre qualquer coisa que fica. Uma frase que custa mais a sair. Uma palavra que se escolhe com cuidado, como se fosse nossa.
“Põe isso de maneira que se perceba bem” disse ela, inclinando-se um pouco sobre o papel.
Assenti. Mas o que me ficou não foi a frase, foi o cansaço nos olhos de quem estava à frente dela.
Quando dei por mim, já era noite. O dia tinha passado inteiro dentro de salas e vozes, e eu só me apercebi quando saí para a rua e o frio voltou a tocar-me na cara.
Cheguei a casa, jantei, vi um pouco de televisão sem realmente ver, como quem fecha o dia com um gesto automático.
Mas, no meio de tudo isto, houve uma ausência que não me largou.
A Dila.
Não a vi. Não ouvi a voz dela. Nem sequer um acaso, um cruzar de olhares, nada. E foi estranho como isso pesou mais do que o resto do dia inteiro.
Hoje percebi uma coisa simples, mas difícil de ignorar, há dias cheios de gente que não chegam a tocar-nos. E há uma pessoa que, quando falta, deixa o dia incompleto, mesmo que tudo o resto tenha acontecido.
Talvez seja isso que começa a assustar um pouco. Ou talvez seja isso que, no fundo, dá sentido a tudo o que faço sem pensar.