O que se constrói em silêncio

Domingo, 2 de Janeiro de 1977

A manhã nasceu sem pressa. Tomei um chuveiro como quem tenta alinhar pensamentos, deixei a água correr mais tempo do que o necessário. Ao pequeno-almoço, pouco disse. Havia qualquer coisa a ganhar forma dentro de mim, ainda sem nome.

Fui para o centro e enfiei-me no gabinete do grupo. Ali, o tempo não pesa da mesma maneira. Trabalhei, arrumei papéis, pensei mais do que devia. Às vezes, dou por mim a fingir ocupação só para não dar espaço ao que realmente importa.

Perto da uma, saí.

À tarde voltei, desta vez com as minhas irmãs. O centro tinha outro ruído, mais vozes, mais passos, mais intenção. Preparámos as mesas para a reunião. Havia um certo cuidado em cada gesto, como se tudo aquilo fosse maior do que nós.

O Manuel chegou, o Benjamim também. Sentámo-nos.

Precisamos da tua ajuda — disse eu, sem rodeios, mas com mais peso do que quis mostrar.

O Benjamim olhou-me com atenção, como quem mede a seriedade do pedido.

Para o grupo coral? — perguntou.

Assenti.

Falou-se de horários, de disponibilidade, de compromisso. Ficou combinado, quintas-feiras à noite, sábados à tarde, domingos mais curtos. Quando ele aceitou, senti um alívio discreto, desses que não se celebram, mas que ficam.

A reunião terminou e levei-os a ver o museu do centro. Caminhámos devagar. Mostrei coisas, expliquei outras, mas por dentro estava noutro lugar. Talvez à espera de alguém que não apareceu.

Quando se foram embora, o silêncio voltou a cair, mais nítido.

Fiquei.

No DIFI, comecei a construir a máquina de projectar que tinha na cabeça há dias. Não era só madeira e peças, era uma tentativa de dar forma ao que imagino, de tornar visível aquilo que só existe cá dentro. Trabalhei com cuidado, com uma espécie de teimosia tranquila. Gosto disto, fazer nascer coisas com as mãos, quando as palavras não chegam.

Às seis e um quarto, fui-me embora.

Em casa, jantei e vi televisão. As imagens passavam, mas não me prendiam. Havia outra coisa a ocupar-me, uma ausência que não sei bem como me faz sentir, mas que reconheço sem esforço.

Hoje construí duas coisas, um compromisso para o grupo… e uma máquina que talvez venha a mostrar imagens.

Mas o que mais ficou foi aquilo que não aconteceu.

Há dias assim. Dias em que tudo avança, menos o que realmente importa.