O primeiro passo em chão incerto
Sábado, 1 de Janeiro de 1977
O ano começou sem alarde, como se tivesse entrado devagar, com receio de acordar alguma coisa antiga em mim. Levantei-me cedo, mais por hábito do que por vontade. O pequeno-almoço soube ao mesmo de sempre, mas havia qualquer coisa no ar, uma promessa discreta, ou talvez apenas o peso do que ainda não aconteceu.
No caminho para o centro, fui a casa do Manel. Levava comigo a intenção simples de lhe pedir que entregasse uma carta ao Benjamim. Mas o acaso, que às vezes parece ter mais pressa do que nós, resolveu antecipar-se, ele apareceu ali mesmo, quase como se tivesse sido chamado pelo pensamento.
Fiquei um instante parado. Olhámo-nos. Não era medo, era outra coisa, uma espécie de resistência interior, como quem sabe que certas conversas não se fazem sem custo.
— Precisava de falar contigo — disse-lhe.
Ele encolheu ligeiramente os ombros, como quem aceita sem perguntar porquê.
— Então falamos.
Mas não ali. Não naquele momento apanhado de surpresa. Combinei com ele para o dia seguinte. Adiar também é uma forma de coragem, embora pareça o contrário.
Segui para o centro e refugiei-me no trabalho. Escrevi à máquina durante algum tempo, deixando que o som seco das teclas ocupasse o lugar dos pensamentos. No departamento do grupo, tudo decorreu sem sobressaltos, mas também sem vida. Cumpri tarefas, falei o necessário, e saí.
À tarde, depois de almoçar, voltei. Ajudei o Mazola no arquivo, papéis antigos, dossiers que cheiram a pó e a coisas que já não importam. Há dias em que a vida parece isso mesmo, um arquivo mal arrumado, onde tudo insiste em ficar.
O grupo reuniu-se mais tarde. A ausência da minha irmã notou-se, não tanto pelo silêncio, mas pelo espaço que ficou por preencher. Há pessoas que, mesmo caladas, sustentam o ambiente. Quando faltam, percebe-se.
Depois das seis, fiquei com alguns colegas. Conversas soltas, risos que não chegam a aquecer, tempo que passa sem deixar marca. Quando dei por mim, já era hora de regressar.
E foi no caminho de volta que pensei nela.
A Dila não esteve em nenhum momento do meu dia, e, no entanto, esteve em todos. Como uma presença invisível, mas firme. Não falei com ela, não a vi, mas dei por mim a imaginar o que diria se estivesse ali. Às vezes, basta isso para alterar o peso das coisas.
“Se hoje te encontrasse…”, pensei, sem terminar a frase. Há encontros que começam antes de acontecerem.
Talvez o ano novo seja isto, um espaço aberto onde ainda não sabemos o que dizer, mas sentimos que alguma coisa precisa finalmente de ser dita.
Amanhã falo com o Benjamim. E, quem sabe, comece também a falar comigo.