O som que fica quando tudo se cala
Domingo, 9 de Janeiro de 1977
Acordei mais tarde do que o costume, como se o corpo precisasse de uma trégua que a cabeça não sabia pedir. A casa estava quieta, quase cúmplice desse atraso. Tomei o pequeno-almoço devagar, sem pressa de entrar no dia, e depois tomei banho, gesto simples, mas que me deu a sensação de recomeço, como se pudesse limpar também o que não se vê.
O Manuel apareceu ainda de manhã. Entrou com aquele ar de quem tem qualquer coisa para dizer, mas não sabe bem como. Ficou uns minutos, falou pouco… e acabou por sair quase da mesma forma como entrou, deixando no ar uma conversa por acabar. Fiquei a olhar para a porta fechada, com a sensação de que há encontros que não chegam a acontecer, mesmo quando as pessoas estão frente a frente.
Até ao almoço, agarrei no pífaro. O “Bontempi” não tem culpa de nada, mas às vezes parece ser o único que me escuta sem interromper. Soprei notas soltas, sem música definida, como quem tenta traduzir o que sente sem saber bem em que língua. E, no meio disso, dei por mim a pensar nela.
A Dila surge-me assim, sem aviso, como uma melodia que já sei de cor mas que nunca se repete da mesma maneira. Pensei no modo como ela inclina ligeiramente a cabeça quando ouve, como se guardasse as palavras antes de responder. Pensei no silêncio entre nós, esse silêncio que não pesa, que até aproxima.
De tarde fui ao centro. Andei por lá sem destino fixo, como quem espera encontrar algo sem saber o quê. Olhava as pessoas, as montras, os gestos apressados… mas, no fundo, estava noutro sítio. Às vezes parece que caminho por fora e vivo por dentro.
E foi ali, no meio da tarde, que a vi.
Estava do outro lado da rua. Não sei há quanto tempo, nem se já me tinha visto primeiro. Ficámos os dois imóveis por um instante que pareceu maior do que o próprio dia. Depois aproximei-me.
— Não te esperava aqui… — disse eu, com um meio sorriso que me saiu antes das palavras.
Ela encolheu ligeiramente os ombros, como quem não quer dar importância ao acaso.
— Nem eu… — respondeu. — Mas ainda bem.
Ficámos lado a lado, sem saber muito bem se devíamos andar ou ficar. Acabámos por caminhar devagar, como se o tempo tivesse decidido acompanhar-nos.
— O que fizeste hoje? — perguntei.
— Nada de especial… — disse ela. — E tu?
— Toquei… um bocado. No pífaro.
Ela sorriu, aquele sorriso curto que não se explica.
— Ainda gostava de te ouvir.
Olhei para ela, mais sério do que queria.
— Um dia mostro-te.
Houve ali qualquer coisa que ficou por dizer. Talvez porque já estava dita, de outra forma.
Não estivemos muito tempo juntos. Nunca estamos o suficiente. Mas há uma medida estranha nestes encontros, não é o tempo que conta, é o que fica depois.
Despedimo-nos sem grandes palavras. Um “até amanhã” que não era apenas sobre o dia seguinte.
À noite, jantei e vi televisão, mas sem realmente ver. As imagens passavam, os sons enchiam a sala… e eu continuava preso àquela tarde, àquele instante em que ela disse “Ainda gostava de te ouvir.”.
Hoje percebi uma coisa simples, mas que custa aceitar, nem todos os dias trazem acontecimentos grandes, mas basta um pequeno momento certo para dar sentido a tudo o resto. A Dila é isso, não precisa de estar presente o tempo todo. Basta aparecer… e tudo se reorganiza à volta dela, como se finalmente fizesse sentido estar aqui.