O tempo que fica entre duas palavras

Sexta-feira, 7 de Janeiro de 1977

De manhã, tudo foi simples, quase mecânico, levantar, vestir, sair. O frio ainda colado às ruas e eu já à espera na paragem, como quem cumpre um destino pequeno mas certo. A Odília apareceu pouco depois, e seguimos juntos até ao seu liceu. Falámos, mas sem pressa, como se as palavras não fossem o mais importante, apenas o pretexto.

Despedi-me dela à porta do seu liceu e voltei para as minhas aulas. Mas o dia decidiu encurtar-se, duas horas roubadas ao habitual, e, sem saber muito bem porquê, fui ter com ela. Entrei no seu liceu com aquele leve desconforto de quem pisa território alheio, mas ela estava lá, e isso bastou para tudo parecer certo.

Aqui? Faltaste às aulas? — perguntou-me, com um sorriso enviesado.

Hoje deixaram-me sair mais cedo… achei que não se iam importar se viesse ver-te.

Ela não respondeu logo. Olhou-me só, com aquele silêncio que diz mais do que qualquer frase bem construída.

Ficámos ali, perto de uma hora. Não fizemos nada de especial. E talvez tenha sido isso que mais contou. Pequenos gestos, pausas, olhares que não precisavam de explicação. Havia uma tranquilidade estranha naquele tempo partilhado, como se o mundo lá fora tivesse abrandado só para nos dar espaço.

Depois saí, fui almoçar, e mais tarde esperei por ela. O regresso teve o peso leve de uma continuidade, como se o dia não tivesse interrupções, apenas mudanças de cenário.

Em S. Pedro, parámos. Meia hora que não foi meia hora, foi mais qualquer coisa, um prolongamento do que não se queria terminar.

Hoje estiveste diferente… — disse-lhe, sem pensar muito.

Diferente como?

Encolhi os ombros.

Mais… próxima.

Ela sorriu, mas desviou o olhar.

Ou foste tu que olhaste melhor.

Ficámos nisso. Às vezes, a verdade não precisa de ser resolvida.

Quando me afastei dela, levei comigo uma sensação difícil de explicar. Não era euforia, nem ansiedade. Era uma espécie de certeza tranquila, como se algo estivesse a crescer sem fazer ruído.

Cheguei a casa, deixei a mala, e saí outra vez. No centro, perdi-me num jornal, mais para ocupar o tempo do que por interesse real, e passei ainda pelo gabinete do DIFI. Tudo normal, tudo sem peso.

À noite, a Academia, o jantar, a televisão. Depois, uma conversa com o meu pai sobre ovnis, aquelas ideias de mundos distantes, vidas que talvez existam sem que as vejamos.

E, no entanto, hoje, o que me pareceu mais estranho, e mais verdadeiro, foi isto: às vezes, não é preciso olhar para o céu à procura de sinais. Eles estão mesmo ao nosso lado, sentados num banco de liceu, a falar connosco como se fosse só mais um dia.

Há encontros que não mudam nada à superfície, mas mexem em tudo por dentro. Hoje não aconteceu nada que se possa contar como extraordinário, e, no entanto, saí de junto dela com a sensação de que algo começou a tomar forma. Talvez seja isso o mais perigoso e o mais bonito, quando o essencial cresce devagar, quase em silêncio, e só damos por ele quando já faz parte de nós.