O que fica depois da pressa
Quarta-feira, 5 de Janeiro de 1977
A manhã nasceu sem surpresas. Levantei-me, vesti-me, e segui para a paragem como quem cumpre um gesto já aprendido no corpo. Pouco depois apareceu a Odília. Trazia no rosto aquela tranquilidade de quem chega sem esforço, como se o tempo lhe fosse sempre favorável.
Fomos juntos. Na viagem, as palavras vieram fáceis, soltas, quase leves, como se falar fosse apenas outra forma de encurtar a distância. Acompanhei-a ao liceu dela e, sem demorar, voltei ao meu. Há uma certa disciplina nestas separações breves, um saber calado de que cada um segue o seu caminho, mas não por inteiro.
As aulas passaram sem marca funda. Quando terminaram, fui à cantina e almocei sem pressa, mais por hábito do que por fome. Depois fui esperá-la.
O regresso foi outra vez nosso. Conversámos durante todo o caminho, como se houvesse sempre mais qualquer coisa a dizer, mesmo quando já tudo parecia dito. Ao chegarmos a S. Pedro, ficámos ainda ali, parados, presos a uma conversa que já não precisava de assunto. Dez minutos que não pediram licença ao tempo. Depois ela foi embora.
E ficou aquele pequeno vazio que não pesa, mas também não desaparece.
Cheguei a casa, larguei o caderno, troquei de pressa, de vida, e segui para o centro. Lá, o ritmo era outro. Tal como na segunda-feira, encontrei-me ocupado desde o início, a ajudar não uma, mas duas assistentes sociais. O trabalho puxava por mim, exigia atenção, presença, quase não deixava espaço para pensar.
Talvez ainda bem.
No fim da tarde, quando se foram embora, fui ao escritório, escolhi alguns livros da biblioteca e saí. Gosto daquele gesto simples de levar palavras comigo, como quem leva lume para acender mais tarde.
Em casa, li poesia. Não muita, o suficiente para me desarrumar um pouco por dentro. Depois televisão, jantar, e a noite continuou na casa do Mazola, com a minha irmã e o meu pai. Um convívio sem sobressaltos, feito de presenças mais do que de acontecimentos.
Voltei e ainda vi um pouco de televisão antes de me deitar.
No meio de tudo isto, o dia passou rápido, demasiado rápido para quem queria guardá-lo com mais cuidado.
Fico a pensar que há dias assim, não trazem grandes acontecimentos, mas deixam marcas pequenas, quase invisíveis. E são essas que, sem darmos conta, vão ficando mais tempo. Como aqueles dez minutos em S. Pedro, que não mudaram nada… e talvez tenham mudado tudo.