Entre o que se diz e o que se adivinha

Quinta-feira, 6 de Janeiro de 1977

A manhã encontrou-me já a caminho, com o frio ainda colado aos dedos. Na paragem, a Dila esperava, não impaciente, mas como quem já sabia que eu havia de chegar. Havia nisso uma calma que me sossegou por dentro.

Hoje estás atrasado — disse ela, com um meio sorriso que não acusava, apenas marcava.

Só o suficiente para ver se ainda me esperavas — respondi.

Seguimos juntos. A viagem fez-se em palavras leves, dessas que não pesam, mas que vão ficando. Quando chegámos ao Porto, acompanhei-a até ao liceu. À porta, hesitámos um instante, como se o dia pudesse ser adiado ali, entre um passo e outro.

Logo vens ter comigo? — perguntou.

Sim, claro.

E foi suficiente.

As aulas passaram sem marca, como se fossem apenas um intervalo até voltar a vê-la. Almocei à pressa, mais por hábito do que por fome, e fui esperá-la. Já lá estava. Sorriu ao ver-me, e nesse gesto simples havia qualquer coisa que me prendia mais do que devia.

No regresso, falámos menos. Não por falta, mas porque já não era preciso tanto. Em S. Pedro, ficámos ainda algum tempo juntos. O mundo passava ao lado, distraído de nós.

Gosto destes bocados — disse ela, quase em surdina.

Eu também. São os únicos que ficam.

Ela olhou-me como se fosse responder, mas não respondeu. Despediu-se com um gesto breve e foi embora, deixando atrás de si aquela sensação estranha de presença que persiste mesmo depois da ausência.

Em casa, larguei os livros e saí de novo. Cheguei tarde ao centro. No arquivo, a água tinha entrado e inundado tudo. Ficámos ali, eu e mais dois colegas, a tirar baldes, num esforço silencioso que pouco tinha de heróico. Depois escrevi ao CEAFI, palavras alinhadas, formais, distantes de tudo o resto que me ocupava por dentro.

Mais tarde, no gabinete, o grupo começou a juntar-se. O Benjamim apareceu, depois o Manuel, as minhas irmãs e outro colega. Fomos ensaiar. A nossa primeira canção, ainda crua, ainda à procura de si, ganhou forma entre erros e tentativas. Havia entusiasmo, mas também um certo desencontro, como se cada um trouxesse um ritmo diferente. Mesmo assim, mantivemo-nos até às oito e meia.

Regressei a casa com o corpo cansado e a cabeça cheia. Jantei, vi um pouco de televisão sem realmente ver.

Dizem que há luzes no céu, coisas que não se explicam. Ovnis, chamam-lhes. No Norte e não só. Há uma inquietação no ar, como se o mundo estivesse a mudar de pele sem avisar.

Mas hoje, se houve mistério, não veio do céu.

Veio daquele instante à porta do liceu.
Veio da forma como ela disse “
Logo vens ter comigo?”.
E da maneira como isso bastou.