Entre o hábito e o que insiste em ficar
Terça-feira, 4 de Janeiro de 1977
Levantei-me ainda com o escuro agarrado às janelas. Pouco passava das sete quando saí de casa, e às sete e meia já estava na paragem, com as mãos frias e a cabeça ainda meio por acordar. O tempo tinha aquele silêncio de começo, como se o dia estivesse à espera de alguém que o quebrásse.
A Odília apareceu quase às oito, com a irmã ao lado. Veio com o mesmo passo de sempre, mas havia nela qualquer coisa que me puxava mais a atenção do que o costume. Talvez fosse só a minha vontade de reparar. Entrámos, e a viagem fez-se em palavras fáceis. Falámos de coisas pequenas, sem importância, e no entanto eu sentia que aquelas conversas iam ficando, como se tivessem mais peso do que pareciam.
Quando chegámos ao Porto, acompanhei-a até ao liceu. Parámos à porta.
— Ficas bem? — perguntei, sem saber bem porquê.
Ela sorriu, breve.
— Fico. E tu?
— Logo se vê.
Não disse mais nada. Ficámos ali um segundo a mais do que o necessário, e depois segui caminho. O resto da manhã foi feito de aulas que passaram sem deixar marca, ou talvez tenham deixado, mas noutra parte de mim, mais distraída.
Ao meio-dia fui à cantina. Comi sem pensar muito, como quem cumpre uma obrigação. Depois, fui esperar por ela. Já sabia o sítio, já sabia o tempo. Há hábitos que se instalam devagar, quase sem pedir licença.
Voltámos juntos. A conversa regressou ao mesmo tom, leve, contínua, como se nunca tivesse sido interrompida. Em S. Pedro, parámos em frente da Casa do Manel. Ficámos ali a falar mais um bocado, sem pressa de acabar.
— Amanhã encontramo-nos na paragem? — perguntou ela.
— Se quiseres.
— Quero.
Disse-o com simplicidade. E às vezes é isso que fica, a maneira como alguém diz que quer.
Despediu-se, e eu fiquei a vê-la afastar-se até desaparecer na curva. Só depois me lembrei de voltar a mim.
Cheguei a casa e almocei outra vez, como se o corpo precisasse de confirmar que o dia estava mesmo a acontecer. Depois fui para o centro. Passei pela biblioteca, folheei livros sem escolher nenhum de verdade. Havia sempre qualquer coisa que me escapava, como se eu estivesse à procura de algo que não vinha em páginas. Antes de sair, passei pelo DIFI. Fiquei lá um pouco, mais por hábito do que por necessidade.
À noite, vi um pouco de televisão, mas sem atenção. A cabeça estava noutro lado. Fui para a Academia. O treino correu como sempre, esforço, repetição, o corpo a obedecer onde a mente às vezes falha. Ali, pelo menos, tudo era claro, ou acertas, ou não acertas.
Voltei para casa cansado. Jantei, e depois fiquei a conversar com a minha irmã. Ela falou, eu ouvi, respondi a meio. Chamámos-lhe “palestra”, mas era mais um daqueles momentos em que a vida se explica sozinha, sem pedir opinião.
No fim do dia, percebi uma coisa simples, há dias que não parecem especiais enquanto acontecem. São feitos de rotinas, de passos repetidos, de conversas iguais às de ontem. Mas, sem dar por isso, começam a construir qualquer coisa. Uma presença. Um querer voltar.
E talvez seja isso o mais perigoso, ou o mais verdadeiro.
Quando damos por ela, já não estamos só a viver o dia.
Estamos à espera de alguém dentro dele.