O ruído onde cabem os silêncios
Sábado, 8 de Janeiro de 1977
Levantei-me com aquela pressa tranquila dos dias que já conhecem o seu caminho. O pequeno-almoço soube a rotina e, ainda assim, havia qualquer coisa em mim que esperava mais do que o habitual, talvez um gesto, uma palavra, um intervalo onde a Dila pudesse caber.
Na paragem, ela chegou pouco depois. Trazia o frio nos ombros e um ar que pedia conversa, mas o Manel veio connosco e, com ele, veio também um certo silêncio imposto. Falámos pouco. Às vezes, a presença de alguém basta para empurrar as palavras para dentro. E eu fiquei assim, a guardar frases que não tinham onde pousar.
No Porto, acompanhei-a ao liceu. Antes de entrar, ainda a procurei com os olhos, não a Odília, mas a Dila, como se pudesse surgir de repente entre os passos apressados dos outros. Não surgiu. Fui para as aulas com essa pequena ausência a acompanhar-me.
A meio da manhã, tive dois tempos livres. Fui com uns colegas para a biblioteca, mas nem os livros me prenderam. Havia sempre qualquer coisa a puxar-me para fora, como se o dia estivesse a acontecer noutro lugar. Quando voltei ao liceu, passei por ela. O toque já soava, aquele som seco que não espera por ninguém.
— Depois falamos — disse ela, quase a fugir.
Assenti, mas ficou por dizer o que realmente importava. Ficamos sempre a dever alguma coisa aos momentos apressados.
As aulas acabaram, e eu vim embora com aquela sensação de dia inacabado. Almocei em casa e saí logo para o centro. Fui bem disposto, leve, como quem ainda acredita que a tarde pode trazer alguma coisa boa. Mas há dias que começam abertos e vão fechando devagar.
No centro, ocupei-me sem descanso. Fiz coisas, falei com pessoas, andei de um lado para o outro, mas por dentro fui ficando pesado. Não aconteceu nada de especial, e talvez tenha sido isso mesmo. Há tardes que nos cansam não pelo que trazem, mas pelo que não trazem.
Quando dei por mim, já era noite.
Voltei para casa, jantei e sentei-me a ver televisão. As imagens passavam, mas eu não as seguia. Estava noutro lugar, num intervalo qualquer do dia, naquele instante em que procurei a Dila sem a encontrar.
Fico a pensar que há dias assim, cheios de movimento, mas vazios no sítio certo. E é estranho como uma única ausência pode pesar mais do que todas as presenças juntas. Talvez seja isso que começo a aprender, devagar, que não é o que fazemos que marca o dia, mas quem nos falta enquanto o fazemos.