Quando o Mundo Começou a Mover-se

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Na segunda-feira o sol apareceu pela primeira vez em dias. Saí de casa por volta das três, com o Manel de bicicleta e o Benjamim na motorizada, aquela fera resmungona que tossia e fazia birra a cada esquina.

— Esta mota qualquer dia ganha consciência e recusa-se a sair de casa! — resmungou o Benjamim, dando um safanão no guiador.

— Se isso acontecer, propomos-lhe que vá ao psicólogo — respondi, já com o suor a escorrer-me da testa.

Passámos em frente à casa da Odília. Nenhum de nós disse nada, mas o silêncio tinha peso. Continuámos até à clareira e atirámo-nos para a relva. Ao fim de um bocado levantei-me com vontade de pedalar.

— Vou dar uma volta. Quem vem?

O Benjamim encolheu os ombros e veio. Seguimos por um trilho conhecido e foi então que a vi ao longe. Abrandei.

— Espera… é ela?

Era. A Odília também nos viu e tentou disfarçar, mas era tarde. Afastei-me para chamar o Benjamim e quando voltámos ela já estava a falar com o Manel.

— Estás a ver aquilo? — perguntei, ainda incrédulo.

— Vejo. E ouço. E estou a gostar! — respondeu ele, divertido.

Aproximámo-nos e entrámos na conversa. Não havia pressa nem assuntos urgentes, apenas palavras soltas e anedotas que faziam rir. Ela estava diferente. Solta. O riso era limpo. Quando decidimos ir lanchar, parei ao passar por ela.

— Vais esperar por nós?

Ela sorriu.

— Claro. Espero, sim.

Corri para casa, lanchei depressa e voltei. Ela estava lá, à nossa espera, sentada na relva com um sorriso. A conversa recomeçou como se nunca tivesse parado. Mais tarde apareceu a irmã dela, depois o Manel, e ficámos todos ali até perto das oito. Quando elas se despediram, nenhum de nós quis que o momento acabasse.

Mal entrei em casa, uma discussão entre os meus pais desabou sobre mim. O dia que tinha começado com sol fechou-se com uma sombra. Fui para o quarto com o riso dela ainda no ouvido.

Na terça-feira, primeiro de Abril, o Manel apareceu cedo e ficámos sentados no muro em frente de casa. A dada altura fui buscar a bicicleta e ele disse de repente:

— Olha! A Dila vem pela rua acima!

Ri-me. Era o Dia das Mentiras, obviamente. Mas quando me virei ela estava mesmo lá, a caminhar rua acima com aquele ar tão natural. Ao ver-nos sorriu e acenou.

— Vamos atrás dela? — perguntei, já a meio caminho.

Seguimo-la à distância, como dois exploradores que temem espantar o que observam. Ao fim de alguns minutos voltámos para trás sem coragem para nos aproximarmos. Havia muito a dizer e nenhuma palavra pronta.

À tarde fomos os três para a clareira. Ficámos lá até ao fim do dia à espera que o acaso nos favorecesse. Ela não apareceu. O regresso fez-se com um leve travo a desilusão. No dia seguinte recomeçavam as aulas.

Na quarta-feira voltei à escola sem entusiasmo. Ia com o corpo presente e a cabeça noutro sítio. Na aula de História a professora atirou os livros para cima da secretária e saiu sem cerimónias.

— Ela não aguenta mais um período connosco — sussurrou o Tiago.

— Ninguém aguentava, com este circo — respondeu o Paulo, revirando os olhos.

Eu não disse nada. Olhei pela janela. O meu pensamento estava na clareira, no riso dela a subir como fumo numa tarde dourada.

À saída esperei pelo Benjamim como sempre.

— Hoje estás calado — disse ele.

— Estou só cansado — respondi. Talvez fosse verdade. Talvez não.

Na quinta-feira só tive três disciplinas. As duas últimas horas foram de Educação Física, o que me agradou. O corpo a mover-se dá tréguas à cabeça. Na aula de Ciências a professora parou junto à minha secretária com um olhar que não era só pedagógico.

— Então, António… conseguiste resolver o exercício sobre combustão?

— Sim, professora… mais ou menos.

Ela inclinou-se ligeiramente.

— Mais ou menos não serve para a Ciência. Ou é, ou não é.

A frase ficou-me. O tom, sobretudo. Havia ali qualquer coisa que preferi não comentar. Saí da escola com pressa de respirar ar que não soubesse a giz.

A sexta-feira foi o dia em que dei um passo que há semanas andava a adiar. À noite entrei para a Juventude Comunista. O meu pai foi comigo. À porta da sede parou e olhou-me de lado.

— Sabes ao que vens?

— Acho que sim. Estou pronto.

Ele assentiu com um "hum" que podia ser aprovação ou dúvida. Antes de se ir embora disse apenas:

— Só te peço que penses pelas tuas próprias ideias. O resto aprende-se.

Lá dentro encontrei caras conhecidas. A Clara, que anda sempre com discos do Zeca debaixo do braço, sorriu quando me viu.

— Eh pá, tu por aqui? Pensava que eras mais do tipo ficar a pensar sozinho no recreio.

— Pensavas mal — atirei, meio a rir, meio sem jeito.

Um rapaz magricela de camisola de gola alta disse com convicção:

— Aqui não é para andar a repetir o que os outros dizem. Se for só para isso, mais vale ficar em casa a ouvir o noticiário.

Fiquei até a sede fechar. Quando saí a noite estava fria mas havia uma leveza estranha no ar. Dei um passo pequeno com grande significado.

No sábado só tive quatro aulas porque uma professora faltou. À noite fui ao cinema com o meu pai e o Benjamim. Depois passámos na sede do partido para comprar o jornal e fui convocado para ajudar na colagem de cartazes. Aceitei sem hesitar. Percorremos ruas e paredes durante horas, espalhando palavras pela noite, até a cola acabar. Eram mais de três da manhã quando comecei a andar para casa com o cansaço a marcar o ritmo dos passos e uma satisfação estranha por dentro.

O domingo começou tranquilo. O Benjamim tinha dito que talvez fosse possível andar a cavalo, um animal que pertencia ao tio dele, mas nunca apareceu. Fiquei a ver televisão até o Manel interromper com um olhar que já conhecia.

— A Dila está no adro da igreja.

Saí imediatamente. Quando chegámos ela já não estava no adro mas encontrámo-la em frente ao cinema, com três colegas e a irmã. Tentámos passar despercebidos, sem sucesso. A irmã apercebeu-se de nós e manteve-se sempre por perto.

Fiquei a observá-la à distância até ela se sentar num muro. Aproximei-me. Por uns momentos as colegas afastaram-se e ficámos os dois sozinhos, sem palavras, apenas a presença um do outro. Depois as amigas voltaram e três rapazes aproximaram-se a tentar meter conversa. Ela virou-lhes as costas sem dar troco. Sorri para mim mesmo.

Uma colega dela veio ter comigo.

— Estás zangado com ela?

— Claro que não — respondi, surpreendido.

Mais tarde, quando já íamos embora, pedi ao Manel que lhes perguntasse se viriam no domingo seguinte. A resposta chegou-me em segunda mão.

— O teu colega está zangado comigo.

O Manel, não sei se por descuido, disse que sim. E ela respondeu apenas:

— Diz-lhe que me desculpe.

Fiquei parado com aquelas palavras. Não havia motivo para ela pensar que eu estava zangado. Mas o facto de isso lhe importar disse-me mais do que qualquer conversa que pudéssemos ter tido.

Nessa noite não consegui pensar noutra coisa.


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