Quando Tudo Começou
Página Anterior - Índice - Página Seguinte
O Benjamim apareceu cedo com um pedido simples: acompanhá-lo ao posto médico. Disse que sim sem hesitar. Sabia que havia a possibilidade de a ver.
Quando ela passou no corredor, o coração disparou. Ia com o pai, calma, sem parecer notar a agitação que me percorria. Desapareceu antes que eu conseguisse fazer seja o que fosse. Fiquei ali, imóvel, com o Benjamim ao lado, fingindo que estava bem.
No caminho de volta não fui directamente para casa. Os pés levaram-me até à rua dela. Esperei. Havia miúdos por perto com quem tinha contas antigas, o que tornava a espera ainda mais incómoda. Mas então ela apareceu à porta, com um ar caseiro que a tornava diferente de tudo o que eu alguma vez tinha visto. Quando me viu, acenou. Só isso. Um aceno. E foi suficiente para que o dia inteiro mudasse de cor.
Nessa noite não consegui dormir cedo. Fiquei na cama a rever cada detalhe, o corredor do posto médico, o aceno, os olhos dela. Não sabia ainda o que fazer com tudo aquilo. Sabia apenas que não conseguia parar de pensar.
No dia seguinte não a vi. O Benjamim tinha estado doente mas apareceu de manhã com melhor aspecto, e combinámos encontrar-nos à tarde. Estava a tentar pôr a motorizada velha a trabalhar, aquele bicho de ferro que parecia ter vontade própria e quase sempre contrária.
— Achas que ainda tem alma? — perguntei, enquanto ele torcia o punho no manípulo.
— Se tiver, hoje vai ter de acordar — respondeu, com um sorriso torto e as mãos sujas de óleo.
Lá conseguimos. E lá fomos, estrada fora, até ao largo perto da casa dela. Parámos ali como se fosse por acaso. Não era. Sentámo-nos num muro e ficámos a conversar de tudo e de nada, com a motorizada a dar-nos luta outra vez, e eu com a cabeça em sítio nenhum. Ela não apareceu. Mas estar perto da sua rua já era qualquer coisa.
Na sexta-feira a tarde correu mal. O Benjamim sugeriu irmos até à clareira perto da casa da Odília. Hesitei, mas fui. Estávamos sentados na relva quando ele me tocou no braço:
— Olha.
Eram elas. A Odília, os irmãos e uma amiga. Caminhavam na nossa direcção. Fiquei paralisado, sem conseguir dizer nada. Passaram por nós como se fôssemos parte da paisagem e detiveram-se um pouco mais à frente. Depois, para minha surpresa, voltaram e sentaram-se perto de nós. Começaram a sussurrar entre si. Riam-se. E foi nesse murmúrio que ouvi um riso que me atravessou de uma forma que não sei explicar.
Procurei a origem daquele som. Era ela. O sorriso que eu tantas vezes tinha imaginado terno tinha agora qualquer coisa que me magoou. Levantei-me sem dizer nada e fui-me embora, deixando o Benjamim para trás.
Em casa não consegui ficar. Voltei à rua dela. Vi-a ao longe com o pai. Todas as palavras que tinha ensaiado desapareceram. Regressei a casa pela segunda vez, sem ter feito nada.
Nessa noite fiquei acordado a pensar se tinha sido tudo imaginação minha. Se aquele riso era mesmo o que eu julgara, ou apenas uma brincadeira entre amigas que nada tinha a ver comigo. Não sabia. Mas algo tinha mudado. A imagem que fazia dela, perfeita e intocável, tinha ficado com uma fissura.
O sábado chegou cinzento, com chuva fina e o pai dela em casa, o que tornava qualquer tentativa de a ver impossível. O meu tio apareceu para visitar os meus pais e a tarde acabou num passeio que não pedi mas que, no fundo, me fez bem. Havia cheiro a terra molhada e flores a despontar nos jardins. Sentei-me num café com os mais velhos e ouvi histórias de outros tempos, sem prestar muita atenção. A cabeça estava noutra parte.
O domingo foi o dia mais longo da semana. Acordei tarde, sem vontade de nada. A rádio tocava baixinho mas não me dizia nada. Tentei ler, mas as palavras escorregavam. O Benjamim apareceu ao fim da tarde e fomos tentar ver uma corrida de motocross. Chegámos tarde. As marcas dos pneus ainda estavam na terra e o cheiro a gasolina pairava no ar, mas já não havia ninguém.
— Chegámos tarde — disse ele, pontapeando uma pedra.
— Pois.
Voltámos sem dizer grande coisa. Ao fim da noite fui ao cinema. Um filme cómico, quase ninguém na sala. Por momentos consegui rir e esquecer. Mas quando as luzes se acenderam a sensação voltou, como sempre volta.
Aquela semana ficou em mim de uma forma que ainda hoje reconheço. Não foi a semana em que algo aconteceu. Foi a semana em que percebi que já estava a acontecer, e que eu não tinha nenhum controlo sobre isso.