A Semana da Aldeia e da Partida
Agosto de 1975
Semana 4
Na segunda-feira o Manel e o Benjamim vieram a minha casa de manhã. A sua presença trouxe alguma leveza, mas o peso do que se avizinhava pairava sobre nós, silencioso e inevitável. À tarde eu e o Benjamim vestimos os kimonos para uma sessão fotográfica a simular uma luta. O ritual das poses pareceu uma pequena distracção, uma tentativa de encontrar normalidade num dia pesado. Mais tarde regressámos a minha casa com o meu pai.
No fim da tarde fui ao funeral do Orlando. O grito dilacerante da mãe reverberou na minha mente, atravessando-me como um vento gelado. Desejava, apesar de tudo, ter a Dila ao meu lado, numa tentativa inconsciente de equilibrar a tristeza com a sua presença. A sua ausência fez-se ainda mais pesada naquele cenário, lembrando-me que, mesmo nos momentos de dor extrema, o que se ama permanece distante mas constante, guardado no pensamento e no coração.
Na terça-feira o Manel veio de manhã com uma notícia inquietante: alguém tentara penetrar em sua casa durante a noite. A sensação de vulnerabilidade pairou sobre mim. À tarde ele foi a casa da Dila com a intenção de ver a irmã bebé. Acompanhei-o, embora não pudesse entrar. Esperei mais de uma hora, mas ele não apareceu. Regressei a casa carregando a frustração e o eco do tempo perdido.
No fim da tarde soube que no dia seguinte partiria para uma viagem de três dias à aldeia onde morara em criança com a minha avó paterna. Uma mistura de nostalgia e expectativa percorreu-me o corpo.
Na quarta-feira levantei-me muito cedo. A viagem durou duas horas e meia no velho Opel Rekord do meu pai, a rolar pelas curvas e contra-curvas de serras que pareciam não ter fim. Santa Cruz da Trapa recebeu-nos como um livro antigo que se abre sem pressa. À entrada o Solar brasonado erguia-se como sentinela de pedra. Mais adiante a igreja altaneira vigiava a aldeia, depois o largo da feira, a Casa do Povo, a escola primária onde vivenciei parte da inocência. O Calvário com os correios, o café e o pequeno coreto onde aos domingos a banda toca.
Quando chegámos à casa no Lugar das Eiras vi uma jovem muito bonita que estava na casa onde ficaríamos. Soube pouco depois que era minha prima, filha da tia Ilda. À uma hora fomos todos almoçar e senti uma estranha familiaridade. À tarde fiquei com ela e com as minhas irmãs, apenas conversas simples, risos leves, o tempo a passar como água corrente. Ao fim da tarde recolhi-me ao pequeno quarto que me foi destinado para escrever. Estava a mais de cem quilómetros da Dila, mas nem as serras que deixei para trás conseguiam apagá-la do pensamento.
Na quinta-feira acordei cedo, nessa hora em que o sol ainda não se mostra inteiro mas já se faz sentir como uma promessa ardente. Na Beira Interior em Agosto não há orvalho, há calor puro e directo como se a terra respirasse fogo desde o amanhecer. Saí com o meu pai e a aldeia ia despertando. O galo a rasgar o silêncio, o cacarejar das galinhas, o bater compassado de um balde num poço, as carroças puxadas pelas vacas, a madeira a ranger sob o peso do arado. As aves nos ramos e entre elas o rouxinol com aquele canto cristalino que parece sempre vir de um sítio mais alto do que a própria árvore.
Quando regressámos procurei o fundo do quintal da minha avó. Lá estava a cama de rede entre duas oliveiras ramalhentas. O ar estava pesado, quente, a cheirar a frutos maduros, palha seca e qualquer coisa da infância que não sei explicar. Deitei-me ali e fiquei a ouvir o ruído distante dos campos.
À tarde fui para as termas de S. Pedro do Sul. À noite, já com a aldeia envolvida num calor macio, deixei escapar o nome da Dila numa comparação simples: a jovem prima de catorze anos parecia ainda presa ao mundo infantil, enquanto a Dila, com treze, tinha um brilho diferente, uma maturidade tímida mas acesa, como quem aprendeu a ler o mundo antes do tempo. Escrevi à luz trémula de uma vela enquanto os grilos iniciavam o seu cântico nocturno.
Na sexta-feira acordei cedo com aquele despertar pesado em que o corpo obedece e o coração fica para trás. Era dia de partir. Fui ao quintal da minha avó buscar maçãs. Aquele quintal sempre me acolheu como um velho amigo, e cada maçã que colhia parecia um pedaço de infância deixado pendurado nos ramos.
Antes de entrar no carro fiz uma espécie de romaria íntima: o fontanário centenário, a eira onde a memória guarda o chiar dos carros de bois, a Quinta do Dr. Leitão, o Alfaiate Augusto sempre curvado sobre tecidos, as irmãs Celestinas, sombras bondosas de um quotidiano que ficava suspenso no tempo.
Com tudo no carro despedimo-nos dos que ficavam. As palavras saíram curtas, engasgadas. A estrada levou-nos o dia inteiro, serpenteando por serras e memórias que se colavam ao vidro. Ao fim da tarde chegámos a casa. Passei pela casa do Manel onde trocámos breves palavras. Mais tarde apareceram ele e o Benjamim, como se a normalidade tentasse recuperar o seu lugar. Aprendi nesse dia que partir não é ir: é deixar. E isso dói sempre um pouco mais.
No sábado acordei cedo mas fiquei na cama agarrado a um livro como quem se agarra a uma jangada depois de uma mudança brusca de maré. O Benjamim apareceu à porta com um gira-discos, como se a música pudesse arrumar aquilo que o coração ainda tinha espalhado pelo chão. Ficou até ao meio-dia e voltou à tarde. Perto do fim do dia foi-se embora levando consigo o último som da agitação.
Tinha acreditado que iria ver a Dila. Mas houve um impedimento, uma daquelas pequenas muralhas que a vida levanta sem aviso. Fiquei com essa expectativa suspensa como um pássaro que recua antes de levantar voo. Restava segunda-feira para procurar voltar a vê-la.
No domingo a manhã levou-me para o rio Couce rodeado pela família inteira. Era um daqueles dias em que o corpo se move mas a alma fica a boiar. A água corria com a serenidade que eu não tinha e enquanto todos conversavam eu deixava-me ficar a observar o brilho do sol na corrente. Só regressámos no fim da tarde, cansados e cheios de sol.
Depois do jantar fui com o meu pai e o meu cunhado ao café Santiago. Encontrámos um conhecido e jogamos algumas partidas de bilhar, como se o próprio jogo tivesse decidido quando terminar. Viemos embora sem glória nem derrota.
Mas por baixo dessa calma havia outra coisa a mexer-se. Amanhã esperava ver a Dila. E aí, sim, a monotonia desfazia-se toda. Tinha tanto para lhe dizer que até o silêncio de hoje parecia ter servido apenas para guardar espaço para ela.
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