A Semana do Acampamento e da Morte do Orlando
Agosto de 1975
Semana 3
Na segunda-feira nenhum dos meus colegas apareceu à porta. O silêncio dentro de casa era quase sólido, uma massa densa que me empurrava para dentro de mim próprio. À tarde o Manel surgiu de repente, ficou pouco tempo e partiu como quem não quer incomodar. Fiquei sozinho de novo com o peso da espera. Procurei a Dila nos lugares do costume, tentei adivinhar a sua presença nos gestos das sombras e no sussurro do vento, mas nada. Ao fim da tarde acompanhei o Benjamim à Academia. Vi-o ser graduado pela primeira vez. Orgulho e admiração misturavam-se em mim, mas junto deles crescia a inquietação, o contraste entre a conquista dele e a minha própria sensação de vazio.
Na quarta-feira de manhã o Manel e o Benjamim foram comigo a casa da minha irmã. Sentámo-nos à mesa entregues a petiscos e pequenas alegrias, rindo-nos das trivialidades que tornavam o momento leve. À tarde fui a casa do Manel. No caminho um pequeno aborrecimento com um dos seus vizinhos trouxe uma sombra momentânea sobre o dia. Aguardámos o momento de falar com o pai do Manel sobre a autorização para o acampamento. A resposta foi clara: não permitia. A negativa caiu sobre nós como uma pedra, fazendo-nos adiar os planos. À noite o Benjamim acompanhou-me a casa da Dila. Mais uma vez não foi possível. Ela e o pai estavam fora. Apenas a irmã e o irmão mais novos estavam em casa.
Na quinta-feira o Manel apareceu com a notícia de que o pai lhe dera autorização. Por um instante pensei que algo poderia finalmente mudar. À tarde vagueámos entre compras e pequenas tarefas, tudo secundário, a mente presa àquilo que mais desejava. Fomos à Academia assistir à última aula do mês. Depois do jantar fomos à casa da Dila como sempre, com a esperança de a ver. Portas fechadas, silêncios profundos. Toda a família já dormia. A frustração instalou-se com suavidade, quase resignada, como se a esperança tivesse perdido um pouco da sua força.
Na sexta-feira nenhum dos meus colegas apareceu de manhã. O silêncio parecia ainda mais pesado. À tarde dei os parabéns ao Benjamim pelos seus dezassete anos. Junto dele e do Manel passámos a tarde a organizar o necessário para o acampamento do dia seguinte. Os meus pais partiram com a minha irmã mais nova para um passeio de três dias, deixando-me sozinho em casa. Decidi que levaria o diário para o acampamento, a única ponte entre os meus dias e os pensamentos que à Dila se prendiam.
No sábado levantei-me às cinco e meia, ainda envolto na penumbra do sono, preparando tudo. O Benjamim chegou pouco depois e partimos para casa do Manel, ansiosos e carregados de expectativas. A viagem durou duas horas e meia e cada quilómetro parecia aproximar-nos da liberdade. Montámos a tenda e por volta das onze comecei a preparar o que iríamos comer. O simples acto de cozinhar envolvia-se num silêncio quase sagrado, interrompido apenas pelos risos dos meus colegas.
Durante toda a tarde ficámos na tenda entregues ao descanso e à preguiça que só a ausência de preocupações permite. No fim da tarde o pai do Manel veio ver como estávamos. Jantámos juntos e o simples acto de comer e conversar ganhou um tom de ritual marcado por uma camaradagem que contrastava com a intensidade do que se passava dentro de mim. Apesar de estar fora de casa, com o diário ao lado, a Dila estava presente na minha mente, suave e constante, a lembrar-me que nenhum lugar, nenhum tempo, pode apagar o que se guarda no coração.
No domingo pouco dormimos. A manhã trouxe-me dores nas costas, lembrança viva das cotoveladas do Manel durante a noite. À tarde uma colega veio ter comigo com uma notícia que me gelou o coração: um colega nosso, o Orlando, tinha morrido num acidente de motorizada. O mundo pareceu parar por um instante. Corri, fui ter com o Benjamim e o Manel para lhes contar. Ambos reagiram da mesma maneira: incredulidade, silêncio, olhos que tentavam compreender algo que não cabia na nossa juventude.
No fim da tarde os pais do Manel e do Benjamim apareceram para confirmar o que já pressentíamos. Desarmámos a tenda e regressámos a casa com o peso da ausência do Orlando. Mais tarde o Benjamim veio a minha casa para juntos prestarmos a última homenagem ao nosso colega. A dor estava ali, simples, silenciosa.
Antes desta notícia tinha decidido ir a casa da Dila. Mas a vida mostrou que há momentos que não nos pertencem. A ausência dela ficou ainda mais viva na minha mente, misturada agora à tristeza e à contemplação daquilo que é efémero e precioso. O dia terminou com a consciência de que, por mais que nos aproximemos de quem amamos, há forças que nos lembram da fragilidade da vida e da urgência de valorizar o que realmente importa.
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