A Semana da Vergonha e do Incêndio
Semana 2
Na segunda-feira o dia abriu-se com uma lentidão inquietante. A companhia do Benjamim ofereceu distracção, mas não conseguiu dissipar o turbilhão que a Dila deixara dentro de mim. O seu olhar, o peso das palavras de domingo, continuavam a pairar. Passei a manhã a observar sombras, a adivinhar gestos, a tentar antecipar sinais que ainda não existiam. À tarde fomos à Academia. Depois de jantar fui a casa dela, esperançado. A porta fechada parecia selar a incerteza que me consumia. Vim embora com o eco daquelas palavras a flutuar: ainda não decidi se te faço esperar mais um bocadinho.
Na terça-feira de manhã caminhei com o Benjamim, mas os papéis que devíamos entregar nunca encontraram destino. À tarde, com o Manel, chegámos ao moinho que queríamos usar para o acampamento. Cada gesto ao limpar o espaço parecia insuficiente, como se tentássemos preparar o mundo para um encontro que ainda não aconteceria. O lanche passou-me quase despercebido. No regresso os olhos desviaram-se, como sempre, para a casa dela. Jantei e refugiei-me no quarto. Foi então que percebi, com uma pontada de frustração, que tinha esquecido de ir à noite à casa da Dila. Todo o dia pareceu desabar em arrependimento e esperança ao mesmo tempo.
Na quarta-feira de manhã mergulhei na leitura de um livro que me transportava para outros mundos mas que não conseguia afastar o turbilhão de pensamentos. À tarde o Manel e o Benjamim estiveram em minha casa. Entre jogos e conversas senti a mistura agridoce da camaradagem, alegria genuína temperada pelo desejo de que a Dila estivesse ali também. À noite o Benjamim veio ter comigo e dirigimo-nos à sua casa. Não a encontrando do lado da cozinha, um impulso impensado levou-me a espreitar pela janela da sala. E lá estava ela, a menina nos braços, serena e bela. Um calor súbito subiu pelo meu peito. O Benjamim revelou que obtivera autorização dos pais para acampar num fim de semana, o que trouxe uma centelha de esperança.
Na quinta-feira a manhã nasceu clara e segui o meu pai até à Serra da Pia. O vento frio das alturas mexia com o pensamento que teimava em não me largar. À tarde a feira trouxe o calor da família, mas o meu coração estava noutro lugar. À noite, depois de jantar, não resisti ao impulso de ir à casa da Dila. O que fiz transformou-se em vergonha: espreitei por uma janela. Senti-me pequeno. A culpa queimava-me por dentro, misturada com o fascínio e a saudade. Era um turbilhão de emoções, a expectativa de a ver, o receio de ser descoberto, o arrependimento por cada gesto impróprio.
Prometi a mim mesmo: nunca mais deixaria que a curiosidade ou o desejo violassem a vida de outrem. Que o meu amor fosse silencioso, paciente, respeitoso.
Na sexta-feira a vergonha ainda latejava, não daquelas que se esquecem com uma gargalhada, mas daquelas que ficam a ecoar por dentro como um aviso. Passei a manhã sem grande rumo. À tarde tentei distrair-me, mas era como remar contra a maré com as mãos vazias. Acabei por dar uma volta maior do que o costume, não com a intenção clara de a ver, mas também não completamente inocente. O coração tem os seus truques. Passei perto da casa dela sem me demorar, quase como quem passa diante de um espelho onde sabe que não quer olhar. A casa parecia dormir e eu não quis acordar fantasmas.
Terminei o dia sentado no quintal, a ouvir os ruídos desta terra como quem escuta uma linguagem antiga. Prometi a mim mesmo que amanhã tentaria ser melhor do que fui ontem.
No sábado de manhã saí com o meu pai e o Benjamim juntou-se a nós. O passeio decorreu sem pressas. Quando regressámos o inesperado trouxe o seu susto: um grande incêndio ardia precisamente no sítio onde tínhamos estado. A visão das chamas, mesmo ao longe, deixou-me com aquela estranha sensação de fragilidade, como se tudo pudesse mudar num instante, sem aviso, sem lógica.
A tarde dissolveu-se em silêncio. Li, dormi, deixei-me ficar a meio caminho entre o mundo e o pensamento. Talvez fosse o incêndio, talvez fosse a noite anterior, talvez fosse só a velha inquietação de querer ver a Dila e não a encontrar. Ao fim da tarde fui com o Benjamim buscar uma tenda a um colega. Não encontrei a Dila. Já quase me preparava para isso, mas nunca me habituei verdadeiramente. É uma ausência que dói devagar. E no entanto, ao escrever, sentia-a a olhar para mim. Um sorriso de Mona Lisa, desses que não se explicam, metade segredo, metade ternura.
No domingo a manhã abriu-se com o cheiro do incenso e o murmúrio da missa. O Benjamim ao meu lado, silencioso. Cada luz que entrava pelas janelas era como um reflexo de algo que ainda não compreendia. À tarde, entre folhas de papel e listas de campismo, tentava organizar-me, dar forma àquilo que sentimos tão imaterialmente. À noite o passeio pelas ruas silenciosas tinha a promessa de a encontrar. Olhei cada sombra, cada janela, cada vulto, o coração a bater na garganta. Vi apenas a mãe dela, a irmã, e o silêncio pesado daquilo que não aconteceu.
Desde que lhe entreguei a carta o tempo tornou-se líquido, lento, impregnado de cada espera que se alonga. Cada minuto sem resposta era um fio que me puxava para dentro de mim mesmo. Ao fechar o dia percebi que a espera é um universo em si mesmo, onde a esperança se confunde com o receio, onde o coração se equilibra entre a coragem e a dúvida. E eu continuava ali, com a certeza de que mesmo no silêncio algo entre nós permanecia, imutável, secreto, precioso.
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