A Semana da Carta e do Bébé


Agosto de 1975

Semana 1

Na segunda-feira virei a esquina e lá estava ela. A Dila. Parada ao sol, como se o mundo tivesse decidido iluminá-la só para mim. Fiquei sem ar por um segundo, talvez dois. Ela sorriu e nesse instante percebi que o meu dia tinha mudado de rumo.

Aproximámo-nos devagar. Ela perguntou-me como tinha passado o fim de semana e eu, tolo ou corajoso, não resisti. Contei-lhe do sonho. Todo. Não apenas os contornos inocentes, mas também os detalhes mais íntimos, aqueles que normalmente guardamos no peito.

A Dila ouviu-me em silêncio, mas os olhos disseram tudo o que a boca não se atrevia. Eram olhos que tremiam, não de medo, mas de emoção. Quanto mais eu falava, mais ela corava, desviando por instantes o olhar.

— Sonhámos lugares que não existem — murmurei, quase envergonhado.

Ela respirou fundo.

— Parece tão real o que estás a dizer.

Houve um silêncio apertado. Ela flectiu os dedos, nervosa.

— E nesses lugares, eu era como?

— Eras tu, mas mais próxima. Mais minha. Como se o mundo fosse feito para nos deixar estar juntos sem medo.

Ela baixou os olhos e pela primeira vez notei um tremor nos lábios, um quase-sorriso, um quase-confesso.

— E tu, como eras no sonho?

— Corajoso. Ou pelo menos tentava ser. No sonho não tinha medo de me aproximar.

Ela ergueu o olhar directamente para mim.

— Talvez nem sempre seja preciso um sonho para isso.

A frase caiu entre nós como uma faísca. A certa altura ela contou-me que também tinha passado os últimos dias estranha, distraída, com a cabeça noutro lugar.

— Senti-me como se faltasse qualquer coisa — murmurou.

— Talvez fosse o mesmo que me faltou a mim — arrisquei.

Ela desviou o olhar, não por vergonha, mas por intensidade. Ficou a brincar com a ponta da blusa.

— Quando me contaste o sonho — começou, e parou. Respirou. — Foi como se tivesse entrado nele.

A Dila aproximou-se meio passo. Eu notei. Ela sabia que eu notei.

— E aquelas partes mais íntimas, o que sentiste ao contá-las?

— Vergonha. E vontade de voltar a senti-las — respondi, sincero demais para ser prudente.

Ela corou, mas não recuou.

— Não sei o que pensar disso. Só sei que não me deixou indiferente.

Houve um momento em que os nossos olhares se cruzaram com uma intensidade tão grande que senti que, se o mundo nos deixasse ali por mais cinco segundos, poderíamos ter apagado qualquer fronteira entre sonho e realidade. O vento mexeu no cabelo dela e sem pensar estendi a mão para afastar uma madeixa que lhe caía no rosto. Ela não recuou. Fechou os olhos por um instante.

— António — murmurou, com a voz trémula. — Se calhar não é só no sonho que…

Mas não terminou a frase.

Quando nos despedimos ela demorou um segundo além do necessário a largar a minha mão. Voltei para casa a levitar.

Na terça-feira o Manel apareceu de manhã e passámos parte da tarde juntos. Falou, eu ouvi, mas a minha mente voltava sempre ao mesmo lugar. Ao fim da tarde fomos à biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian requisitar livros. Caminhei entre estantes e cheiros a papel antigo com a memória de ontem a acompanhar-me como uma sombra luminosa. À noite fui com o meu pai ao café. Ele demorou tanto que vim para casa sozinho. A noite estava fresca mas o vento não conseguiu varrer os pensamentos.

Na quarta-feira de manhã sentei-me à secretária e encarei o papel em branco. A carta que iria escrever à Dila seria mais do que palavras, seria o que o coração ousava revelar. Escrevi sobre o fascínio que sinto por ela, sobre o jeito como cada sorriso seu ilumina os dias mais cinzentos. Coloquei memórias dos nossos encontros, palavras sussurradas que se transformaram em promessas silenciosas, e os meus receios, o medo de a magoar, o receio de que ela não percebesse a intensidade do que sinto. Cada linha era um fragmento de mim.

Às onze e meia cheguei ao local do encontro. A irmã da Dila surgiu primeiro, e por um instante senti uma sombra de desalento, mas logo a confirmação de que ela vinha trouxe coragem. Quando entreguei a carta, os olhos dela encontraram os meus.

— Prometo que quero continuar a descobrir-te, estar contigo, sem pressa, sem que nada nos separe. Cada momento contigo importa mais do que tudo.

Ela aproximou-se, quase em silêncio.

— Eu também sinto o mesmo. Mesmo os nossos silêncios dizem muito.

Despedi-me com um gesto contido mas carregado de significado. Caminhei de regresso com o coração acelerado e leve de esperança.

Na quinta-feira de manhã eu e o Manel esperávamos pela irmã da Dila. Cada minuto tornava-se mais pesado e o tempo alongava-se como se o mundo tivesse decidido atrasar-se só para nos punir. Não apareceu. Voltámos para casa com a frustração silenciosa de quem percebe que a ausência pode ser mais presente que a presença.

À tarde a cidade do Porto foi um bálsamo. Com o Benjamim e o primo percorremos ruas e lojas. Entrámos numa casa de desportos onde deparei com o mestre Roque, que há tanto não via. Depois seguimos para a academia de artes marciais onde, entre movimentos precisos, notei pela primeira vez duas raparigas. Não eram a Dila, mas algo nelas despertou uma curiosidade silenciosa, um lembrete de que o mundo continua mesmo quando o coração espera por alguém específico. À noite o Benjamim chegou com energia contagiante e começámos a desenhar um projecto juntos, entre planos, risos e debates.

Na sexta-feira o dia abriu-se lentamente com uma luz de Agosto que parecia acordar a contragosto. O Manel apareceu por hábito e demos uma volta curta, duas sombras em movimento. No fundo havia uma presença silenciosa mas dominante. A Dila insinuava-se em cada pausa, em cada gesto distraído. Procurava sinais onde não havia nenhum. Uma esquina, uma janela, um som que pudesse ser o seu riso.

No sábado a manhã passou tranquila, feita de gestos rotineiros. As ruas pareciam maiores ao fim de semana, como se a ausência de pressa abrisse espaço para ouvir o próprio silêncio. Havia uma falta subtil, quase um descompasso: o som que não surgia, a voz que não aparecia. À tarde o calor puxava para os caminhos habituais. A mente não seguia uma linha recta, desenhava círculos, regressava aos mesmos pontos, revivia conversas, olhares, promessas não ditas. Por vezes surgia a suspeita de que o coração estava demasiado atento, como se qualquer rumor distante pudesse ser confundido com os passos dela.

No domingo a tarde abriu-se em luz larga, ideal para pedalar sem destino. As bicicletas avançavam lado a lado, o Manel, o Benjamim e eu, como quem percorre o Verão apenas para sentir o vento na cara. O fim da tarde trouxe a surpresa, a Dila surgiu no caminho a regressar a casa. Aproximou-se sem hesitação, anunciando logo a alegria da mãe. Tinha nascido uma menina.

Havia mais. Havia a carta entregue dias antes, e um receio leve no rosto dela, como se não soubesse ainda que resposta dar. À noite o Benjamim apareceu com o violão e a ideia surgiu quase sem ser dita, ir até à casa da Dila. Quando chegaram ao pátio a luz fraca da entrada deixava ver a sua silhueta. Estava ali, quieta.

— Olá, Dila.

— Qu'est-ce que vous voulez? — disse ela, com aquele francês de brincadeira, antes de sorrir. — Olá, António. Que fazes aqui?

— Passeávamos. E pensei que talvez te pudesse ver.

— Hoje o dia foi uma confusão.

— Aconteceu alguma coisa?

Foi então que deixou o sorriso verdadeiro aparecer.

— A minha mãe teve o bebé. É uma menina.

O silêncio que se seguiu era carregado dessa novidade doce e inesperada.

— Por acaso já leste a carta? — murmurei. — Não queria que te assustasse.

Ela baixou os olhos, mas não fugiu.

— Já li. E não me assustou. Só não sei ainda o que dizer.

— Não tens de dizer nada hoje.

Ela levantou o olhar devagar.

— Então digo outra coisa.

— O quê?

— Que ainda não decidi se responderei à carta. Ou se te faço esperar mais um bocadinho.

O sorriso que deixou escapar era metade timidez, metade provocação. E antes que a conversa crescesse, uma prima apareceu à porta a chamá-la. A Dila despediu-se com um gesto breve mas cheio de promessa e desapareceu para dentro.

O silêncio que ficou depois tinha um sabor doce e amargo. Havia a alegria do nascimento e a incerteza da carta que ainda não tinha resposta. Compreendi que amar é muitas vezes aceitar o silêncio do outro e respeitar o seu tempo.

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