A Semana do Retrato Invisível

Julho de 1975

Semana 4

Na segunda-feira, com o dia entregue à solidão e à companhia breve do Manel e do Benjamim, dediquei-me em silêncio a observar o que até então permanecia apenas na memória. Fiz aquilo a que chamava um estudo sobre a Dila, não apenas da superfície, mas de tudo o que me prendia quando pensava nela.

Fisicamente é uma presença leve, quase etérea. O contorno do rosto, o brilho discreto dos olhos azuis que parecem guardar mundos inteiros, a postura serena que não se impõe mas que domina o espaço. O movimento das mãos, a forma como gesticula, a maneira de inclinar a cabeça enquanto pensa, tornava-se poesia em silêncio. Tudo num corpo de ninfa prestes a transformar-se numa graciosa borboleta.

Mentalmente irradia uma clareza calma, uma inteligência que não se apregoa mas que se insinua nos detalhes, nas respostas que oferece, nas perguntas que formula, na curiosidade contida pelo mundo que a rodeia. Emocionalmente é um enigma encantador, sensível sem fragilidade, firme sem dureza, generosa sem ostentação.

Ao escrever aquelas linhas percebi que não se tratava apenas de compreender a Dila, mas de a guardar em palavras antes que o tempo levasse a clareza da memória.

Na terça-feira o dia passou rápido mas vazio. A manhã foi apenas a minha própria companhia a ecoar pelos cantos da casa. À tarde o Benjamim veio e pedi-lhe o gravador emprestado. Deixei-me afogar nas melodias, cada nota uma pequena cura para o coração apaixonado. À noite, ao ir com o meu pai ao café, o acaso apresentou-me a irmã da Dila no quintal. Creio que ela me viu, e por um instante o mundo inteiro estreitou-se naquele olhar fugaz. O vazio da espera tornou-se mais intenso, mas a centelha de esperança, teimosa, persistiu.

Na quarta-feira o dia arrastou-se lento, com a casa a fechar-me os horizontes. O silêncio era pesado. Quando o Benjamim chegou com os patins uma pequena faísca de vida acendeu-se na tarde. Conversámos, rimos, e durante umas horas o mundo ganhou contornos mais suaves. Mas a Dila não apareceu. E a ausência dela é como um vazio que nada consegue preencher. Sinto uma dor silenciosa no peito, um aperto que não se dissolve. É ela que dá sentido aos meus dias.

Na quinta-feira a apatia era um manto pesado que me cobria os ombros. O mundo perdeu cor e cada pensamento se dissolvia numa névoa onde nada importava. Sentei-me à janela a olhar a rua deserta, esperando que uma sombra trouxesse a sua presença. Tudo o que via era o reflexo do meu próprio vazio. A solidão tornava-se quase física: sentia o peso da ausência nos ombros, na garganta, nas mãos que nada podiam segurar.

Na sexta-feira acordei ainda envolto num sonho que parecia tecido com os fios do impossível e que quis guardar. Nele, a Dila e eu caminhávamos por ruas silenciosas iluminadas por lâmpadas trémulas que lançavam sombras longas sobre os nossos passos. Cada gesto parecia ensaiado mas ao mesmo tempo espontâneo, como se o tempo tivesse decidido suspender-se para nós. Corríamos por jardins secretos e vielas esquecidas onde só nós tínhamos acesso. Caminhávamos por uma pequena ponte sobre o rio com o reflexo das estrelas a dançar na água. Sentávamo-nos à beira, os pés a tocar a água fria, a respiração dela misturada com a minha.

No ápice do sonho estávamos deitados sobre a relva fresca entre flores e sombras. Havia uma pureza no que sentíamos, um êxtase silencioso que não precisava de palavras, apenas de presença e entrega. Quando despertei ainda sentia o calor da sua presença como se fosse real. O dia continuou com a leveza de quem saboreou o impossível.

No sábado acordei ainda envolto no eco quente daquele sonho. Passei a manhã meio perdido entre pensamentos e lembranças. A realidade parecia desfocada, como se o mundo me pedisse paciência para voltar a ganhar contornos. Cada sombra que o sol projectava lembrava-me as sombras do sonho, cada silêncio ecoava o riso tímido da Dila. Era como viver num intervalo entre dois mundos: o real, lento e previsível, e o nosso, o impossível, mas tão vivo que ainda estremecia dentro de mim.

Fiz pequenos afazeres sem grande convicção apenas para não ficar parado. A tarde caiu com uma serenidade luminosa e percebi que o sonho não tinha sido apenas um devaneio. Tinha sido uma revelação. Deitei-me sem pressa, quase com a esperança infantil de reencontrar aquele jardim escondido, aquela ponte silenciosa, aquele instante de pura entrega onde o mundo se dissolvia até restar apenas ela e eu.

No domingo o dia nasceu morno e sem surpresa. Acordei lento, sem grande vontade de ocupar espaço no mundo. A apatia instalou-se logo cedo como uma sombra que se cola à pele. Vagueei pela casa sem destino, tocando nos objectos como quem confirma que ainda existe. Nada parecia ter verdadeira importância.

E no entanto, mesmo neste torpor cinzento, havia um ponto de luz constante: a Dila. Era como uma chama que não se apaga, mesmo abafada pela monotonia. A lembrança do sonho ainda fazia ecos suaves na memória, mas hoje vinha em murmúrios. Aparecia num pensamento súbito, num suspiro involuntário, num vazio que de repente se tornava mais fundo só por saber que ela existia algures, longe de mim.

Deitei-me cedo com a secreta esperança de que, no sono, a Dila pudesse regressar. Não como saudade, mas como sonho, como gesto, como presença.

Assim terminou este domingo: vazio por fora, mas com ela sempre acesa por dentro, como um farol que insiste em brilhar mesmo quando o mar é só calmaria.


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