A Semana do Comício
Julho de 1975
Semana 3
Na segunda-feira fui ver as notas. Passei de ano e o alívio expandiu-se dentro de mim como ar quente a subir. Mas depois não havia mais obrigação, nem plano, nem caminho. A tarde espalhou-se em pedaços soltos. Fui até ao jardim de S. Lázaro, sentei-me num banco, deitei-me na relva, segui o voo errático de folhas secas ao vento. O calor do Verão abraçava-me mas a mente vagueava: flutuava entre a liberdade de ter passado de ano e o pensamento dela, persistente e irresistível. Cada sombra, cada reflexo numa janela, cada vulto distante parecia esconder o seu sorriso.
À noite olhei demoradamente para a fotografia dela. O seu sorriso parecia iluminar o quarto e os olhos falavam sem palavras. Fiquei imóvel, como se o tempo tivesse decidido parar, ouvindo apenas o meu próprio coração.
Na terça-feira o Manel prometera companhia mas não apareceu. Vagueei sozinho entre pensamentos e sombras. Ao passar em frente à casa da Dila ouvi vozes dos pais lá dentro e o coração apertou-se. No monte, longe de tudo, deixei-me levar por devaneios onde a realidade e a imaginação se confundiam. O vento parecia sussurrar o seu nome e cada folha que caía me lembrava qualquer coisa que não sabia o quê. Quando finalmente regressei a casa o mundo real parecia frio e vazio comparado com a intensidade do que imaginara.
Na quarta-feira o Benjamim veio com um convite que parecia simples: ir acampar. Aceitei, claro, mas dentro de mim havia uma inquietação silenciosa. Enquanto seguimos para o local ríamos das pequenas tolices do dia e das histórias que nós contávamos. Mas mesmo entre risos a minha atenção dispersava-se. Olhava para o céu e imaginava a Dila, onde estaria, o que estaria a fazer, se pensaria em mim. Nenhum aroma do campo podia rivalizar com a lembrança do seu sorriso. À noite quando o pai do Benjamim nos veio buscar o dia tinha sido alegre, cheio de movimento e conversa, mas faltava o essencial. Não a vi, e isso fez do meu coração um lugar silencioso onde a ausência dela ecoava mais alto que qualquer riso.
Na quinta-feira de manhã o Benjamim perguntou-me se queria ir com ele ao posto médico. Fui de bicicleta. No percurso cruzei-me com um rapaz e o seu avô numa discussão acalorada que interrompeu o meu ritmo. Palavras a subir e a cair como pedras até a calmaria voltar. Ao regressar a casa o quintal da Dila chamou-me o olhar por breves instantes. Estava lá. Não pude ficar e parti carregando comigo aquela centelha de proximidade. À tarde o Benjamim e o Manel estiveram em minha casa. Às seis e meia parti com o Benjamim para o Porto, fui buscar um papel ao liceu e depois à escola de artes marciais.
Na sexta-feira a ausência da Dila deixou-me confuso, com os pensamentos a vaguear sem rumo. De tarde o meu pai chegou mais cedo para ir a um comício e decidi acompanhá-lo. Mal chegámos a confusão começou. Entre gritos e empurrões, pessoas feridas e o medo crescente, vi-me obrigado a fugir com ele, o coração a bater forte, o corpo tenso. A adrenalina corria-me nas veias enquanto tentávamos escapar, cada passo uma mistura de medo e alerta, a cidade um labirinto de tensão. À noite no café o calor do lugar e o riso das pessoas deram-me algum alívio. No regresso a casa a cidade parecia mais silenciosa, como se o mundo tivesse finalmente recuperado a respiração.
No sábado de manhã ajudava o meu pai a construir um capoeiro, quase uma meditação em madeira e pregos, quando vi a Dila e a irmã. Um instante de luz que partiu a rotina do dia.
Lá estava ela, com o ar ligeiro das manhãs de férias, o cabelo solto a dançar no vento.
— Olá, Dila.
— Olá, António — respondeu, com um sorriso que me fez esquecer o que era respirar devagar.
— As férias estão a correr bem?
— Estão. E tu? Tens aproveitado os teus dias?
— Tento. Mas parece que falta qualquer coisa.
— Sei do que falas — respondeu, quase num sussurro, com os olhos a brilharem de forma que só eu podia decifrar.
Ficámos um instante em silêncio. Era um silêncio cheio de palavras não ditas. Um vento leve mexeu-lhe o cabelo.
— Sabes, estive a pensar — arrisquei, aproximando-me só um pouco.
— E?
— Que fico feliz por te ver. Finalmente.
— Eu também — respondeu, baixando ligeiramente os olhos mas mantendo o contacto, como se quisesse que eu visse tudo o que estava por trás do sorriso.
Rimos baixinho, partilhando aquele instante que parecia nosso, longe de olhares alheios.
— E amanhã — comecei, hesitando.
— Amanhã veremos o que o dia nos traz — completou ela, com um brilho nos olhos que fez o meu coração estremecer.
Ficámos ali mais um pouco, sem pressa, a prolongar o instante que o tempo teimava em encurtar. Quando a brisa nos separou voltei para casa com o coração a transbordar.
No domingo o tempo não andou para a frente. Ficou parado comigo como um cão fiel mas sem saber o que fazer ao dono. Acordei sem pressa, sem bússola. Fiquei a vaguear pela casa como quem anda perdido numa estação de comboios sem horários. A cabeça enchia-se de ideias soltas que nunca chegavam a ser planos. Pensava na Dila, no futuro, em nada, tudo misturado. As emoções decidiram fazer coreografia própria, nada de suave, um bailado descompassado que me puxava para dentro.
Acabei o dia com aquela sensação estranha de ter desperdiçado horas, mas ao mesmo tempo sentir que precisava mesmo disto. Um dia suspenso. Como se a vida estivesse a respirar fundo antes de me empurrar para o que vier depois.
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