A Semana do Alto do Depósito
Semana 2
Na segunda-feira o dia arrastou-se em casa, pesado e lento. Só à tarde saí com o Manel, mas mesmo a sua companhia não preenchia o vazio. Às sete e meia fui com o Benjamim ao Porto para a minha terceira aula de artes marciais. Entre golpes e socos a mente teimava em fugir. Cheguei perto das dez e meia, cansado mas inquieto. Quando o Benjamim chegou com o violão sentámo-nos em frente de casa e começámos, ele a tocar e eu a cantar. Cada acorde parecia uma ponte até à Dila, ausente e presente ao mesmo tempo. Fiquei sozinho quando ele se foi embora, com o coração ainda acelerado, olhando para o céu escuro.
Na terça-feira a manhã acabou com a última aula de Ciências. Saí cedo e fui ver o quadro das notas da Dila. Quando encontrei o nome, vi duas negativas. Não sabia ao certo se eram suficientes para chumbar, mas preferi não ficar a calcular o que não me competia. Voltei para casa com uma sensação oca e a tarde abriu-se diante de mim vazia, sem planos. Vagueei entre janelas, portas e pensamentos. Com o fim das aulas vinha também o fim dos encontros acidentais, dos olhares que escapavam entre portas. Percebi que o Verão tem isto de cruel: afasta-nos das pessoas que mais precisamos de encontrar. O meu pai chamou-me mais tarde para o ajudar a preparar um nunchaku para os meus treinos. Ocupou-me uns longos minutos e, por breves instantes, serviu para silenciar a confusão dentro de mim.
Na quarta-feira de manhã encontrei a irmã da Dila, apressada. Disse-me que a Dila estava doente. A frase ficou suspensa entre nós e eu limitei-me a desejar-lhe as melhoras, depressa demais, quase com medo de mostrar o que me atravessava o peito. Ela seguiu caminho e eu fiquei parado por breves segundos. Saí depois a vaguear de bicicleta pelas ruas e vielas, sem destino, a deixar os pensamentos correrem à frente dos passos. Cada esquina fazia-me lembrar a ausência dela, cada rua parecia longa demais. À noite ensinei ao meu pai algumas técnicas de luta. Movimentos simples, quase inocentes, mas que nos aproximaram por uns instantes. Ele observava-me com aquela atenção discreta de admiração.
Na quinta-feira passei o dia com o Benjamim e o Manel, entre jogos de cartas e voltas de bicicleta, mas a mente não parava. A Dila, continuava sem notícias e isso deixava-me com uma sensação de vazio que nem a presença dos amigos conseguia preencher. À tarde vagueei de bicicleta pelas ruas de S. Pedro, deixando que os pensamentos me conduzissem. Cada esquina parecia recordar-me das rotinas que antes se enchiam de pequenas alegrias quando ela estava por perto. O jantar, a televisão e o silêncio que se segue quando a noite cai foram o resto do dia.
Na sexta-feira quase no fim da tarde subi ao caminho abaixo do Alto do Depósito. Lá estava ela, como se soubesse que eu a esperava. O vento movia-lhe suavemente o cabelo e a luz do fim do dia desenhava o contorno do seu rosto com delicadeza.
— Olá, Dila — murmurei, aproximando-me devagar.
Ela sorriu e inclinou ligeiramente a cabeça.
— Então, estiveram a fazer muitas traquinices hoje?
— Poucas. Nada comparado a isto.
Ela riu baixinho, cúmplice, e sentou-se na pedra a mexer distraidamente nos cabelos.
— Adoro estes momentos. Mas ninguém pode saber.
— Nem eu quero que saibam. Sinto-me mais eu próprio aqui, contigo. É como se o resto desaparecesse.
Ela olhou-me nos olhos, séria por um instante, e depois sorriu.
— Sabes, ontem pensei em ti. Perguntei-me se estarias a pensar em mim também.
— Sempre. Cada minuto longe de ti é uma eternidade.
Ela aproximou-se ligeiramente, baixando a voz ainda mais.
— Então prometes-me algo? Que nunca vamos deixar que nada nos afaste daqui, nem as pessoas, nem as famílias, nem os olhares curiosos?
— Prometo. Não há nada que me faça mudar de ideia, Dila. Nem o mundo inteiro.
Por um instante ficámos em silêncio, só nós dois, ouvindo o vento e o som do sino da igreja a tocar horas distantes.
— Tenho pena de ir embora — disse ela, tocando ligeiramente a ponta da minha manga antes de se levantar.
— Eu também. Mas sempre que nos encontrarmos, este momento será nosso. Sempre.
Ela sorriu, um sorriso doce e triste ao mesmo tempo.
— Até amanhã. Não te esqueças de mim.
— Jamais.
Quando desapareceu entre as sombras do caminho o seu perfume ainda flutuava no ar. O resto do dia passou lento, tudo à minha volta eram sombras distantes comparadas com o que tinha acabado de viver.
No sábado o dia amanheceu tímido. Passei a manhã entre pequenas distracções, a arrumar o que não precisava de arrumação, a folhear um livro sem o ler. A Dila parecia estar em todos os cantos da casa, embora não estivesse em lado nenhum. Depois do almoço vagueei de bicicleta quase sem destino. Quando subi ao Alto do Depósito já a tarde estava num tom dourado cansado. Sentei-me no sítio do costume e fiquei num diálogo mudo comigo mesmo.
Então, de que é que te andas a defender? De quê é que tens medo? De a perder? Ou de a querer demais?
Não disse as palavras em voz alta. Ficaram apenas a vibrar-me no peito, sem som. Voltei para casa antes que a noite caísse. Não aconteceu nada de extraordinário e, no entanto, senti que algo se tinha deslocado dentro de mim, como uma peça que finalmente encontra o encaixe certo.
No domingo de manhã tive aula de ginástica na escola de artes marciais com o Benjamim e o primo dele. O corpo mexia-se mas a cabeça andava noutra parte. Regressei a casa cheio de fome e comi com apetite. A tarde correu devagar com o Benjamim. Só quase ao entardecer apareceu o Manel, sempre com aquela energia que parece chegar atrasada ao dia.
Às oito eu e o Benjamim voltámos para a nossa volta habitual. Não era preciso escolher o caminho: havia apenas um. Quando chegámos, lá estava a Odília no pátio com a irmã. Vi-a de longe, muito longe, mas mesmo assim senti aquele aperto doce. Fiquei parado a observar sem ousar aproximar-me, como quem teme que um passo em falso espante a alegria.
Esperei. E depois, como se o universo piscasse um olho, ouvi a voz dela.
Aquela voz. Sempre me desarma. É uma música que não pede licença, entra e fica.
Foi apenas um instante, um punhado de segundos. Mas bastou. Há dias em que basta ouvi-la, mesmo que ela não saiba que estou ali, mesmo que o mundo não mude por causa disso. Depois o silêncio fechou-se devagar como uma porta que se encosta sem ruído. E eu vim embora.
Deitado, fiquei a pensar nela. Quando a vejo, mesmo ao longe, mesmo por um fio de acaso, sinto que o dia ganha sentido. A Dila não sabe, mas basta a sombra dela para pôr ordem no meu caos. E às vezes tenho medo disto, deste poder que ela tem sobre mim sem sequer pedir. Mas depois penso que talvez seja isto que é estar vivo com quinze anos: amar assim, sem jeito, sem lógica, sem defesas.
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